Cocaína ya?

Linhas Rosa

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

...tharsis


Kathársis foi algo inesperado. Óbvia afirmação de quem tem no não criar expectativas o primeiro exercício para a liberdade de criação. Da minha e da dos outros. Isso ou o poder de um arco natural plantado nas paredes da sede da Associação de Jornalistas de Cabo Verde. Como experiência visual a cidade ganha em Kathársis a experimentação. A tentativa de absolver a memória da prisão. Do marasmo. Em Kathársis a prisão é revista pelo seu contrário. Muitas vezes a liberdade. Não raras vezes a angustia. Tudo no feminino. Soizic Larcher. Nada sem o feminino. O mar, o som, as marcas, os testemunhos. A estética para a redenção. Schofield e a Bianda materializada. O necessário ensaio da prática. Paradela é mais valia para a cidade, para o visual. Vamos sendo mais crioulos. Mais modernos…ou será mais contemporâneos. Do futuro, claro. O presente é constante passado.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Cidade...



Gosto da cidade, de toda cidade. Principalmente da minha, onde não existem Metros nem túneis subterrâneos. Onde temos sempre que enfrentar a cidade olhos nos olhos para deslocar de um ponto para o outro. O tempo tem, terá sempre razão. Por enquanto vamos servindo copos. Aos boémios, aos artistas, aos políticos, aos intelectuais e ao povo todo. Vamos petiscando seus sabores, sexos e toda a filosofia popular. Debitemos com toda a sagacidade em toda a tecnologia. Panfletos electrónicos e bits cronometrados. A cidade, olhos nos olhos observa-nos e ri-se. De nós e da sombra que inventamos. Do olhar e da mentira. Do ego e da pobre ironia Tanta realidade e nós comendo o passado. Inventando nicks. Sem escadas ou túneis subterrâneos. Sem metropolitanos, a urbe se faz olhos nos olhos. Ninguém é quem parece. A cidade e o baile de máscaras. Servimos copos em decotes e meias justas. Gostamos. A cidade tal como ela é. Um antro de putas e proxenetas. De sujeitos insuspeitos e donas de casa imaculadas. Gays e lésbicas fornicando e lambendo-se com gozo. A farsa e o decoro. O animal em nós domado e clandestino. Gosto da cidade, de toda a cidade. Principalmente da minha, onde não existem Metros nem túneis subterrâneos. Onde temos sempre que nos enfrentar  olhos nos olhos.

Imagem: Sergio Larrain




A mim ninguém nunca me ensinou que era feio ser coerente. Chamar nomes ao primeiro-ministro ou a presidentes de câmaras. Ninguém nunca me ensinou que é feio, muito feio reconhecer o valor de cada gesto. Ninguém nunca me ensinou que arte redime e salva. Ninguém nunca me ensinou que quem fala mal, constantemente mal dos outros, das coisas e da vida alheia, acaba um dia mordendo o seu próprio veneno. Ninguém nunca me ensinou que ser um pequeno burguês enfadonho e empoeirado seria o pior pecado para os que me amam. Ninguém nunca me ensinou que ser feliz pode ser a seta mais venenosa para todas as víboras que te rodeiam. Fui aprendendo.

Imagem: Dayanita Singh

Bento Oliveira na Praia


Clic na imagem
A agenda é um objecto importante. Principalmente se nos dão a possibilidade de escrever nela, com alguma antecedência os eventos a não faltar. Eis que vos anuncio a abertura no próximo dia 19 de Dezembro de “IMAGO”, exposição individual de Beto Oliveira pela 18h na i.gallery Nho Eugênio. Tomem nota: sábado, final da tarde com Bento na i.gallery.

Nós


Há coisas para dizer e uma delas deve ser dita de forma clara e inequívoca: José Maria Neves, o Governo e os diplomatas de Cabo Verde estão de parabéns. Conseguir o segundo compacto do MCC, na actual conjuntura internacional, é um mérito que não se consegue pelos nossos lindos olhos azuis. Vale a pena enviar esta nota de apreço ao trabalho dos nossos governantes. Sem nenhum mas….porque cabo Verde é quem ganha.

Imagem: Yann Arthur Bertrand

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

quebrar gelo...


O ano passa e o único sinal disso são as coisas que eu não voltaria a repetir. Chega de saudades e o futuro aí tão à mão de se adivinhar. Caetano durante anos a fio. Este ano, Lobo Antunes e suas angustias diluídas num cancro. Estranha simpatia. O Mindelo sem Jorge Marmelo. Italianas na craquinha. Teatros anatómicos. Os dedos do homem que não consegue parar de escrever livros e voltar a apagá-los. A borracha em dois pólos: azul e vermelho. A constante revisitação das estantes e dos livros. Páginas interrompidas pela nicotina. Cinzas no teclado e nas calças. Nem mesmo o amor resiste. Os anos e a renovação. Da alma. De lugares. Do prazer. Subir e descer a calçada do Combro. O ano do vinho. Do peixe. Dos temperos e saladas. Queijos e chocolates derretidos em corpos de igual textura. Cor. Sabores. Cala-te Veloso, não conheço Bahía nem tenho por lá  nenhum amor. Os envelopes continuam vazios em cima do amplificador. “Podemos ser amigos simplesmente… coisas do amor nunca mais.” Digo eu e o tal Caetano. “Ressentimentos passam como o vento.”


Vitrinas e escaparates. Jóias e relíquias. Corpos esculpidos. Pela dieta. Pela gordura. Pelo tédio. Pela ilusão. Revistas e pensos higiénicos. Pernas delgadíssimas. Decotes e seios ciliconados. Cemitérios da guerra. Eu brincando de esquecer. Voltaram os Griots e o silêncio. Voltaram as luzes e os espantalhos. Voltaram os filmes e a fantasia. Voltaram tuas frases fúteis. Tua raiva. Teu repentismo. Esqueço. Nos dedos de nicotina os livros continuam a ser dilacerados. Permanecer. Flan bu nomi. Bó é kenha. O texto constrói-se livremente sem o meu consentimento. O buraco húmido onde entro ao entardecer. As lentes de Yann Arthus-Bertrand. O mundo como nós não o sabemos. “Faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã…” De manhã escrevo textos. “Não tenho quem prestar satisfação.” Cassandra Wilson “I love old fashion…and I don’t mind”. As colunas Bose e o tabuleiro de xadrez em extremidades opostas. A plasticina do M.. “Praianas” de José Luis H. Almada. A caixa onde tudo cabe. Agenda vermelha e o rato preto. A arvore natal e o pen drive piscando luzes. A chave do carro. O pregador lilás onde o deixaste. Cecil Taylor cutucando no piano “You'd Be So Nice To Come Home...”. Vou talvez vou. Quebrar gelos. Fornicar o planeta.

Imagens:Yann Arthus-Bertrand

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

dling dlong dong ...ao fundo




O tempo resvala colina abaixo. O espaço fragmenta-se em mil pedaços imprecisos. Desbataramos o vazio em trezentas fotos. Imitação da ficção e do sonho. O vazio. Ninharias. E-mails em massa. Chats e correntes imaginários irradiando felicidade. O simulacro da vida. Abraçamos causas gigantescas. Maiores que os milímetros dos nossos braços. A estante e os livros. A música e o silêncio. Mensagens intersectadas e entregues por engano. A descompressão. (Des) compreenção. Tudo o que já passou e não sabemos. A recusa. A banalidade. Tudo o que somos e rejeitamos. Nem uma coisa nem outra. Crianças rolando bidões. Imitando trovões. O precipício tão perto do começo das coisas. Haveremos de ter inundações. Pestes e secas. Mortes e renascimentos. Mas antes, terá tudo passado por mim.



O quadrado do quarto, do quadro. As mão sujas de quem pinta a preto e branco. Poucas cores. Mas as cores. O Monstro dentro de todos. De mim. O passado de grades e suas releituras. Vagas. Racionais. A história e o destemperamento das vaidades. Crianças  disparando armas de brincar. A impossibilidade de regressos. No amor e no tempo. O bisturi cura pela corte. O amor pela surpresa. Pelo espanto. Simultaneidade. Códigos de barras para a invenção de um homem novo. Retirar da velha mala a árvore de natal. Crianças de mãos estendidas. Esticar os ramos verdes espalmados. Embrulhar os presentes e acender as luzes de natal. Redesenhar esse sentimento. Sorrir muito quando o menino sorri. Ser criança e voltar a caminhar do centro da vila e Assomada até Bulanha. Inalar, encher os pulmões do cheiro a árvore de natal. Figos secos, ameixas, irmãos, mãe, pai e o incansável som do telemóvel anunciando mais uma msg de boas festas. Nosso tempo e os momentos de felicidade. O tempo derrapa morro abaixo. O espectro da vida. A trivialidade. Tudo o que somos e rejeitamos. Nem uma coisa nem outra. O abismo tão próximo da origem das coisas.

Imagem: Arthur Tress

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

news...paper


Falando em “go green”, aproveito para dizer que os jornais CV impressos deveriam desaparecer do mercado. Não que não sejam pertinentes em si, simplesmente porque, quando chegam às bancas nunca acrescentam nada às notícias dos jornais online. Onde está a falha: no jornalismo cabo-verdiano ou nas políticas editoriais dos donos das empresas? Nesse jogo de fazer de conta que se faz jornalismo, o jornal ASemana é o que constitui maior fraude aos 100 escudos que se paga. Já nem o radar tem graça. O expresso deveria pelo menos melhorar a qualidade do papel impresso. A Nação, tirando alguns exageros do Zig Zag que se põe bebendo ponche di tambarina, é o jornal mais equilibrado da praça. Digo isso, assumindo claramente minhas ligações emocionais com o jornal. Se calhar estamos já num tempo em que news só mesmo on-line...para o papel grandes reportagens, grandes entrevistas, alguma literatura, alguma cultura....

we must go green..


We must go green. Green do Cabo Verde, nome da Utopia que nos fundou nação. Porque mudança climática sempre houve. Cada ano, cada dia, cada hora. Calor. Frio. Degelo. Desertos. Ignorância. Mas hoje a inteligência do homem que inventou moedas e a palavra economia ameaça-nos. China e Índia gritam à Europa: “vossemecês poluíram o planeta durante 150 anos…agora a nossa vez”. África quer compensações. Em notas e transferências bancárias. Enquanto isso, ilhas se afundam no oceano. Tigres em extinção. Budas em meditação. Putos bué inteligentes fumando maconha à espera da revolução. Apetece dizer que se lixe. Parar de parir e (des) habitar o universo. Podar o que sobra das árvores na cidade. Vazar camiões de lixo à porta do palácio do governo e dos resorts em Boavista. Caçar tartarugas e come-las grelhadas. Afinal nada importa. Copenhaga e nós. Filho não seja radical. Diz minha mãe, avó de Martin. Ele e a vida toda pela frente. A puberdade. Os beijos. As namoradas. Espermas acumulados à espera de óvulos que sejam férteis para povoar o mundo. We must go green, se quisermos ser avôs. Lá vai o homem do laço branco e a mulher emancipada de braços dados. Deitando latas e dejectos pela janela do automóvel. Lá vão eles com a bagageira cheia de sacos de plásticos e o ar condicionado por instalar. Ela reclama “este planeta está horrível, impossível sair de casa sem suar os sovacos e as calcinhas” e ele “ talvez pró ano descubram gelo em Marte”. Ela suspira aliviada. As Himalais vêm a baixo e Vasco Martins caminhando pelo “Tibete”. A boa música, a boa arte salvar-nos-á. Pelo menos da morte popular.

Imagem:Yann Arthus-Bertrand

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

um blue note pa capital...


Procuro pistas para escrever. Algo que me livre da eterna tentação de falar mal. De realçar defeitos. Procuro rastos. Perfumes, tatuagens, etiquetas. A pele marcada. Palavras. Sempre palavras. Folheio livros e páginas rascunhadas. Então Borges. Jorge Luís. A propósito do passado. De abolir. Assim: "o propósito de abolir o passado já ocorreu no passado e- paradoxalmente - é uma das provas de que o passado não pode ser abolido. O passado é indestrutível; cedo ou tarde, todas as coisas voltam, e uma das coisas que voltam é o projecto de abolir o passado." Algumas. Muitas. Demasiadas tentativas. Ando por aí e dentro de mim uma cidade. Praia. A cidade dentro de mim cresce e tem mais alma. Blue Note.


Mais que boémia, a audácia. Finalmente a cidade feita de homens triunfa sobre a cidade de palavras. De crónicas e posts. De homens alucinados pelo vazio. Mestres da oratória. O novo espaço de jazz, blues, de música na cidade é definitivamente a pedrada no charco que faltava. A cidade vingativa. Nas rédeas um homem indomável. Um valente “soco” nos que pretensiosamente viram as costas à cultura. Nos músicos que não tocam. Nos músicos mercenários. Nos artistas reprimidos. No ministro invisível. No primeiro-ministro que continuou o trabalho dos seus antecessores: assassinar e perverter o sentido da palavra cultura. Um recado para os leitores dos blogs que afinal são as baratas dos partidos: enviem um sms.


Nenhum ministério nos irá salvar desse desinteresse geral por um conceito de cultura que ultrapasse os festivais de verão e os shows do auditório nacional . A cultura é uma variedade de valores. E como diria, mais uma vez, Borges “para a razão, para o entendimento lógico, tal variedade de valores pode constituir um escândalo, mas não para os sonhos, que têm sua álgebra singular e secreta, e em cujo ambíguo território uma coisa pode ser muitas." Tenho tido razão ao pensar que a boa cultura não precisa de subsídios. Precisa de amantes. De artistas por inteiro. De fãs incondicionais.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

hoje...


Mulher. Mulher. Mulher. Hoje dia di Nha Santa Catrina. Festa que já não vou. Não tenho nem paciência nem a dose suficiente de fé para peregrinar até a igreja baxu. Mas Santa que é Santa é para sempre. Nha Santa Catarina ki é di meu. Mário Lúcio, Princezito. Comemora-se também hoje um dia que nos lembra a inesgotável animalidade do ser humano. Dos homens sem H. Um dia em que se pede em primeiro lugar que as mamãs sejam as menos machistas possível. Que responsabilizem o menino tal como a menina em todas as tarefas. Um dia em que se pede às mulheres que não se calem. Denúncia. Gritos. Inteligência. À justiça a celeridade necessária para evitar vítimas. Outra vez às mulheres… às que conseguiram já romper as barreiras da mediocridade, do analfabetismo, da dominação…que dêem a cara. Que não entrem apenas na luta menor do enriquecimento, do sucesso. Do jogo subtil de serem apenas donas de casa disfarçadas de executivas. Mais combatividade. Mais mulheres por iniciativa própria nos órgãos de comunicação social, candidatas a serem eleitas não a serem escolhidas pelos partidos…Peço mais mulheres com causas. Nenhuma forma de tolerância é tolerável perante a violência. Nem mesmo a passividade com que a justiça ignora as primeiras denúncias. É lastimável esquecermos que são elas quem movem o mundo. Pela beleza, pela inteligência, pela sedução, pelo carinho, pelos segredos, pelo mistério...por tudo e em tudo superiores aos homens na sua maneira sempre original de enfrentar o mundo.

Imagem: David Lachapelle

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

i.gallery abre com... "Open Box"...



 Clic na imagem para visualizar:
Em menos de  uma semana, aqui vai a segunda publicidade feita no linhas rosa::
 "Fruto de um casamento por amor, entre as letras e as imagens, nasce a i.gallery na livraria Nhô Eugénio, Achada Santo António, na cidade da Praia. O opening será na próxima quinta-feira 3 de dezembro, com uma exposição colectiva de fotografia, pintura e desenho. Sob o titulo "Open Box"..." quem quiser saber mais visite o blog da ideia em: igalleryne.blogspot.com. O convite/imagem deste post, é para espalhar electroecologicamente. Pois venham.


segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Politicoisas...


Para começar não há pedaço de chão, numa ilha, que possa valer dois escudos. Desta forma não há empreendedorismo que nos safe da dependência da administração pública. Os cidadãos não podem, de forma nenhuma, impor os seus interesses ao do estado. Mas este, tão pouco pode usurpar, sobrepor ao cidadão que abdique de reclamar um preço justo pelas suas propriedades. Para terminar esse tema digo apenas que: temos um estado muito maior do que podemos suportar. Janira Hopffer Almada é neste momento a cara do que não deve ser a atitude do governo: a voz, o tom, a fúria. Falo claro do tempo. De datas. Vamos entrar no ano do inicio das campanhas. Se não puderem contratar o João Branco para encenador, ao menos peçam à Vera Duarte (que até tem jeito nas artes, dizem) para dar um toque. José Maria Neves: cansa-me vê-lo tão cansado. Do poder. Do partido. Dos cabo-verdianos e suas incúrias. É o nosso Paulo Bento. Carlos Veiga entrou em cena e estou confuso. Precisa ganhar o tal novo fôlego. Ainda falta brilho ao seu discurso. Miguel Monteiro (Milton Paiva, Luís Carlos Silva) e Nuías Silva (Edson Medina, Vanusa, Verissimo Pinto) devem, agora, dar o sinal de que são de facto a nova geração de políticos do novo Cabo Verde. Paulino Dias where are you?

Imagem: Steven Meisel

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

doses...



Com o tempo vão-se acumulados as coisas que afligem. Entre elas a clara falta de talento para executar determinadas tarefas. Amar. Ficar. Construir. Regressar. A vida inteira pela frente. Minha petrificação perante certos mistérios. O nó da gravata sempre mais fina e desalinhada do que eu desejo. O amor em doses sempre maiores do que posso suportar. A tendência genética para diabetes. A impossibilidade de escrever poemas oportunos. O enfado das coisas óbvias. A crescente dificuldade em escrever. O finito furtivo sob a capa do infinito. Meu corpo. A demora vai empilhando milhares de livros e títulos para ler. Angustia. Músicas silenciadas pela distância. O desconhecimento. O meu tempo sempre minguando. As articulações pedindo poltronas. Drummond xingando de mim. A luz de Agosto sobre a Lena de Faulkner. Prenha como eu. Carroças e moedas. Budas ditosos. Ao contrário. Orgias. Sempre. Mulheres de Bukowski. Sempre putas. Sempre desesperadas. Bêbadas. Sempre com ganas de foder. Saltemos estas linhas por pudor. Idades contingentes. Apagar tudo e voltar a escrever. Repetir. Fugir da insipidez.

Imagem: Peter Callesen

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

bora lá...

Guardo hienas no frigorífico. Guardo frases sublinhadas nos livros. Guardo paciência nas molas da cadeira de baloiço. Traços descontínuos em telas inacabadas. Milhares de folhas insinuando formas preguiçosas. Nas colunas Da Weasel “muda o teu número eu mudei o meu…muda o teu mundo que eu mudei o meu”. Crescem as linhas que se debitam em chats, falando de banalidades, filosofando o quotidiano da rotina, comendo palavras para encurtar. DW “Bora la fazer a puta da revolução”. Fernando Pessoa amotina “Sou uma placa fotográfica prolixamente impressionável. /Todos os detalhes se me gravam desproporcionadamente [a]/ haver um todo. Só me ocupa de mim. O mundo exterior/ é me sempre evidentemente sensação. Nunca me esqueço de que sinto.” Polir os sapatos. Tirar o tapete. Flitar a casa. Lamber o sal da pele. Agasalho lembranças em latas de compota. “Não temos tempo para que eu te mostre quem sou.” Bora lá curtir. Moscas cagando cortinas e vidros. A liberdade por findar. Não me esqueço de que sinto. Livros dos desassossegos. Os eses da palavra desassossego. Uhuh Uhuh yee yee faz faz…no chat “tas a ver miga, vê que eu até curtia do gajo mas a cena num deu bem porteime male”. Guardo cicatrizes como tatuagens. Guardo soutiens, tangas e texturas. Perverso, libertino. Guardo impressões digitais na porta do frigorífico. Baybe, bora lá curtir que a cena tá a bumbar. A escrita da real ficção.
Imagem: Steven Meisel

Nha Terra Nha Cretcheu Hoje...

Porque o castelo está mesmo a pegar fogo e é preciso agarrar o bicho pelas caudas, venho por este meio combidar vossas excelências a assistir hoje ao programa Nha Terra Nha Cretcheu, às 21h15 na RTP. O tema central é o/a dengue (mais outras doenças infecciosas). O convidado é o especialista português Kamal Mansinho. Além do excelente trabalho da equipa de jornalistas do Nha Terra (aqui nem digo modéstia à parte, porque tenho mesmo orgulho da equipa por quem dou a cara), o Dr Kamal vai desmistificar alguns mitos e explicar por a mais b o porque, o quando, etc e tal. Para quem não conseguir ver hoje, sexta-feira às 22h na TCV. O convite está feito.
Imagem: David Lachapelle

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

pianos em queda livre...

Vamos lá escrever algo coerente. Espero um contributo das palavras e da memória. Vamos lá escriturar algo decente, peço-me. Deixar de tretas e revoltar-me contra algo. A dengue e o temor. O negócio do medo e os preservativos com sabores. O dedo atrevido que escorrega. Mero exercício de escrita sem criação. As mortes que não aumentam. A tristeza dos que buscam motivos para culpar. Se a dengue fosse lepra muitos dedos apontados seriam infectados e corroídos. Tal a persistência. Mas não é. Então, dedos apontados. Meu sorriso estúpido e um manto vermelho. Olhos nos olhos com o mosquito de pintas brancas. Grito Oooolé. Abano os pés fugindo por antecipação. Dois alfinetes entre os dedos. Repito: Ooooolé. Uma palmada na nuca e outra nas pernas. O Joseph Mary curou-se e volta para o trabalho. Vai ser monitorizado contra recaídas. Um piano em queda livre. Algo decente para escrever, uma ideia genial. Um filme para contar. A luz. O deslumbramento perante a descoberta tardia. O pasmo. Sms minadas, atómicas, implosivas. O ódio ao tédio. O tédio do ódio. Esta mania do trocadilho fácil. Desinspiração. Não, não. Demasiado álcool no sangue. Vinho. Grogue. Um cozido à portuguesa. Gargalhadas e finas maquinarias marcando horas. Canetas em osso negro revestido em ouro. O luxo. O gosto. O requinte. Elefantes e rinocerontes. Depilação parcial. Penetração. No cerne e na carne. Ler poesia e dissimular a crueldade da verdade. O sermos finitos. Primaveras na Rússia. Basta. Vamos lá escrever algo consequente. Com o tempo e as causas. Tirar ilações ponderadas. Um novo parto para nós. Sairmos do umbigo e contemplarmos o mundo. Suas consequências. A extinção das espécies e da humanidade. A brutalidade da incultura. Não me repetir. Música maestro. Música tocada na ciência de uma pauta. O solfejo da paciência. O estigma. Gostamos de pobres e da sua catchupa. Sejamos pobres. Comamos catchupa. Gostamos de ser doutores. Sejamos então doutores. Conhecimento e naturalidade. Cotovelos. A simplicidade das sete notas. Cabeças no alcatrão. O olhar e a arte. A escrita vazia de sentido. Assim. Inconsequente. A retórica do álcool. Aguardo o auxílio da memória e do verbo. Folha virtual. Mas branca. Legumes e enchidos. A pauta e o instrumento. Ser ilhéu. Ainda a desvairo de morrer laminado por um piano em queda livre. Funeral. Sorrisos aliviados.
Imagens: Steven Meisel

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

utopia...

Não vejo as horas que passam. Não sinto os minutos que sussurram no interior do relógio como se do meu corpo. Suspiras-me ao ouvido “como me irás chamar?”. Paloma. As tragédias acontecem lá fora. Paloma mexe as ancas e recolhe todo o silêncio do universo. No escuro, alguém fuma um cigarro devagar enquanto espreita, distante, o mundo. Não fumo. Vejo o mundo. Alguém. Eu aqui. Caminho entre os gongos e ignoro o tempo que também passa indiferente. As tragédias do mundo. O olhar de Paloma pedindo “aman”. Os contratempos do mundo não passam pelo amor. Minto. Nego. Fujo. A marca de baton no canto da minha boca. Denúncia. Afinal, o mundo aqui. O teu corpo contorce na febre. Os limites dos teus medos jogam-te constantemente para os meus braços. Aproveito-me de ti com sadismo. Espalho-te marcas pelo corpo. Ignoro os teus sinais. Copio tua silhueta no espelho. Andas nua pelo quarto em saltos altos. Tens medo que o frio te enferme o útero. Queres parir-me. Gargalhadas. Queres abrasar o meu futuro. O aroma do teu sexo povoa cada covil do apartamento. O infinito no desequilíbrio dos teus seios. Dizes não ter pressa. Que o amor é também deixar-se amar. Entrego-me. Devoras-me a carne. Passa-se o tempo sem se dar conta de dois corpos destroçados pela utopia.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Detalhes...

Descuramos dos pormenores. Seguimos em frente. Construímos um grande país. Temos slogans. Grandes slogans. Mosquito é um detalhe. No telejornal da RTP informa-se que dois mil milhões de pessoas estão em risco de serem infectados pela dengue. No mundo inteiro. Causa: não se sabe bem como, mas as alterações climáticas podem explicar... Copenhaga 09. Aqui precisamos de mais dois meses para controlar a dengue, diz a apresentadora. Tremo. Em rodapé: PM de Cabo Verde está doente. Independentemente de como o combatemos, o certo é que depois deste surto…para o ano teremos mais. Na rádio oiço esta: “está-se a criar uma estratégia concertada no sentido de mitigar os efeitos da dengue junto dos países de proveniência dos turistas.” Arregalo os olhos e bato com a mão na testa. Alguns estrangeiros querem partir. Nunca o medo foi tão legítimo. Um lugar tranquilo, livre de todas as pestilências. Sentado frente ao mar bebendo um Chateaux d’Yquem Sauterne de 1787. Hoje não. Quando a crise passar…talvez bebamos o tal Chateaux. É provável que JMN tenha dengue e eu tenho pena. Em estado de epidemia convém que o líder máximo esteja operacional. Nestes dias é fácil botar uma praga que pegue. No Canal 5, uma reportagem mostra imagens do HAN. A DENGUE. Nas filmagens o retrato do que temos vindo a negar: um país do terceiro mundo. Cristina Duarte passando o repelente roll-on na pele. Não confio em Basílio. Rezo ao Deus do paracetamol, da vitamina C, da pomada anti-coceira, das redes anti-mosquito, do limão, do álcool canforado e do cravinho. Pululam os profetas do apocalipse apregoando o fim. Idiotas apontando o dedo para os outros. Para o caos. Quando tudo é tão óbvio. Acto contrição. Aqui, toda a energia positiva precisa-se. Duas cavalas no grelhador eléctrico. Toda a palavra “coragem” é imprescindível. Alface, tomate, cebola e feijão furado. Sei dos males. Doutras lacunas. Chã branco. Sei das horas. Sei do grito necessário. Cera nos ouvidos.
Imagens: Terence Koh

Se é que me faço entender…por Woody Allen

“Mais do que em qualquer outro instante histórico, a humanidade vai ser obrigada a escolher. Uma das vias leva ao desespero e à mais completa ausência de esperança. A outra leva à extinção total. Espero que tenhamos a sensatez de fazer a escolha certa”

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

respirar...

Um exercício de espanto e pasmo. Assim foi o nosso fim-de-semana longo em Cabo Verde. Ninguém pensava que havia tanto lixo. Ninguém pensou que haveria tanta gente nas ruas ta “garbata na lixo”. Ta “panha” lixo. Se estas epidemias serviram para desmascarar-nos, também cuidou de nos unir. Não há poesia nenhuma em morrer. Não há encanto em assistir a debilitação da carne, da alma. Do ser em nós. Para quem só tem a existência quotidiana para gerir, a vida está intransitável. Todo o pânico abala. Outras fugas precisam-se. Alertas. Sinais. Outros desesperos. Vozes. Temperos. Há muito contentamento no “djunta mô”. Muito passado também. A pouca civilização em nós desenterrada do esterco, das valas, dos subterrâneos. Do apego a coisas. A nadas. Somos um povo orgulhoso. Pois então orgulhemo-nos dos médicos, enfermeiros, estudantes, serventes e funcionários dos hospitais e centros de saúde. Do NOSI e dos que montaram a logística. Na escassez. No desânimo. Na imprevidência das autoridades. Temos gente. Boa gente. Bem formada. Empenhada. Imitando os rappers: my respect. Há motivos para alegria, para sorrisos. Risos. Não há nenhuma poesia em morrer. Sei. Mas há muita no viver. Nos que nos salvam. Nos que têm o condão de nos devolver o alento. Esperança. O esquecimento está repleto da memória doutras pestes. Sangue. Mortes. E nós a consequência de tudo. Do resto. Sobreviventes. Herdaremos contas por acertar. É certo. Cabeças por rolar. Silêncios por ciliciar. Mãos sujas contaminadas. Palavras imperceptíveis. Consciências no divã. Contudo, há demasiada poesia em viver. Em continuar. Respirar.
imagens: Jean-Michel Basquiat

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Amor em tempos de Dengue...

Imagem: Trevor Watson
Querendo fugir de ti, normalmente atrapalho-me e caio sempre de novo na tua cama. Tu envolves-me como se não tivesses rancor por eu querer ter partido. Tudo para depois te vingares. Tudo para depois me humilhares com o suor do teu sexo. Com a obscenidade das tuas ancas. Com as mentiras com que me alicias. Lavo-me de ti quinhentas vezes, disfarço teu cheiro, tuas marcas pelo meu corpo. Chispo e vou para longe. Mas sempre, no lugar mais improvável passas mesmo por acaso e aí me encontras. Tu nunca queres nada, nunca sais à minha procura. Encontras-me na rua como quem encontra a luz no dia. Instintivamente. Para ti sou um dado adquirido. Nem sei se és tu quem me inventa ou se sou eu quem se deita nos caminhos por onde passas.
Imagem: Craig Morey
Sou somente um bichano arrebatado pelo ardor do teu cio. Sigo teu rasto pela cidade. Aguardo nos portões e soleiras onde pressinto que estarás. Para me dizeres “não”, “talvez”, “depois”. Arrasto-me aos teus pés pedindo desculpas por “qualquer coisinha”. Na cama, encolho debaixo dos lençóis vasculhando com perícia os vestígios da última vez. No instante em que fecho os olhos para esgaravatar as sentenças com que terminaria este texto, chegas tu de surpresa. Lês cada frase e sussurras-me: “trocaste os papéis”. Rimo-nos com gosto e refilas: “só a ficção para salvar a tua crueldade”. Digo uma banalidade qualquer enquanto lentamente nos emudecemos sob o peso das tuas palavras.

Paranóia…

Acordo de manhã meto dois dedos debaixo do sovaco. Aguardo um minuto e invento um número para a temperatura corporal. Arregalo os olhos tentando sentir prováveis focos de dores. Tiro o lençol e procuro picadas pelo corpo. Começo pelos pés. Levanto-me, abro a cortina para verificar se choveu, pingou, gotejou ou se algum vizinho terá lançado água no meu quintal. Volto para o espelho e inspecciono o nariz, as gengivas, o pénis a tentar perscrutar sinais de sangramento. Estou bem, estou vivo... repito para mim. Leio outra vez um flyer que diz “Dengue mata” e imagino a cara do Basílio Ramos comunicando com um nervosismo indisfarçável: “está tudo sob controlo, tudo sob controlo”. Vou à janela e imagino uma turba de mosquitos organizados em colunas romanas, à espera de um descuido meu. Verifico o álcool, o cravinho, calculo a quantidade de repelente convencional que ainda resta. Oiço pela rádio notícias das mortes, dos números e tento atribuir-me um número na estatística. Sou um bilhete de totoloto. O meu medo não é morrer e dar trabalho aos outros. Meu medo é morrer simplesmente. Deixar de existir. Eu vou ser quem mais pena terá. E o meu filho. Indiferente a tudo chuchando no dedo. Se lhe acontece alguma coisa, faço o quê? Culpo Basílio, Zé Maria, Ulisses, Filú? Eles que esperaram até ao último momento para pedir ajuda internacional?
Culpo a mim por ter nascido num país miserável, onde se vive no meio do lixo, onde os políticos são arrogantes e a sociedade civil não passa de engrenagem eleitoralista? Muitos ainda vão tombar. Não vale a pena lamentar. Não é preciso ninguém sair do seu bairro. Cada um que inspeccione seu bairro como o faz com o seu corpo. Não é preciso ninguém dar ordens, não preciso que ninguém me dê ordens.
Imagens: Ana Mendieta

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

hora minguada...

Tenho espíritos em casa. Um quadro que se recusa a ficar pendurado. Um rato que rói durante a noite no interior das paredes. Uma janela que sopra mesmo estando fechada. Um par de havaianas que andam sem mim pelos quartos. Um cão que ladra mesmo depois de se ter mudado de casa. Uma cadeira que balança sem o meu peso. Uma gata branca em cima do meu frigorífico. Desenhos que trocam de molduras e uma negra nua deitada no meu sofá. Um mosquito da dengue querendo picar o meu pé. Os vizinhos subindo e descendo as escadas. A escultura em barro rodopiando sobre si mesma. O computador imitando frases minhas. O chuveiro pingando sumo de limão e uma mulata enrolada nos meus lençóis. Um clarinete no quintal imitando Diana Krall: “Stop this World”. Uma noiva batendo à porta e canetas intermitentes riscando os ladrilhos. Cesária bebendo chá e fumando cigarros na cozinha. A televisão sempre ligada no mesmo canal e Waldemar Pires com o dedo em punho repetindo “preciso de si”, “preciso de si”… “preciso de si”. Os negros da fotografia “New Orleans jazz Festival” de José Fernandes, em fila para mijar na minha casa de banho. Frida Kahlo depilando as sobrancelhas, no corredor, enquanto olha fixamente para o seu reflexo na moldura de um desenho de Bento Oliveira. Minha avó andando em círculos, às gargalhadas, enquanto berra “naah bu stanprali… bu stamprali”. Eu, já morto, de smoking vestido, fumegando charutos, sentado à porta vendendo bilhetes.
Imagens: Robert & Shana ParkeHarrinson

domingo, 1 de Novembro de 2009

lavar...

Por acto de higiene mental, pudor, integridade ou simplesmente sobrevivência (sobretudo intelectual) acho que é legítimo, de vez em quando, colocarmo-nos a questão: será que não me estou a tornar um “Velho do Restelo”? Se “não” seguimos em frente como se nada. Se “Sim”, acho que não seria má ideia pegar em Obama como exemplo e interrogarmo-nos mais uma vez: como posso ser o agente da mudança na minha comunidade (be the change)? O único defeito desse exercício é, sem dúvidas, a fraca capacidade de autocrítica de todos os seres humanos.
Imagem: Arthur Tress

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

à margem...

Já não preciso rasgar-te a carne para saber que me fantasias. Falamos olhos nos olhos. Contas-me tudo. Sabes da minha sozinhez e vens. Confirmas que estou só, que não passo de um capricho e partes feliz por não me teres tocado, beijado, possuído. Por me teres recusado. Confirmas que não existo, que sou uma linha à margem de ti. Percorres o meu peito descoberto com um olhar longo, examinas minha pele e os meus dentes. Digo-te que eu não valho nada. Zombas do meu jogo bobo e dizes não entender. Falamos olhos nos olhos e tu escondendo-me pensamentos. Uma risca na orla do teu corpo. Um rascunho estrábico e eu algures por aí, no meio de tudo.
Imagem do filme: The Reader

distancias...

«O carácter é como uma árvore e a reputação como uma sombra. A sombra é aquilo que pensamos dela, mas a árvore é que é real.»
Abraham Lincoln

nota...

“O maior desafio, e mais assustador, são as alterações climáticas, que ameaçam toda a nossa civilização. Se este problema não for atacado rápida e eficazmente, não acredito que possamos concentrar-nos em qualquer outro problema nos próximos vinte anos. Aliás, as alterações climáticas ameaçam tudo. Se estivermos mortos nalgumas décadas, não é preciso estarmos reconciliados.”
Amin Maalouf

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

cão...

Hoje vi um cão do tamanho de um ténis de basquetebol correndo atrás de dois homens. Dois senegaleses, nigerianos, costamarfinenses, gambianos…não sei bem. Duas pessoas do sexo masculino, vestidos com trajes largas e longas, de pele negra como o alcatrão. Muito sorridentes, muito amáveis. Antes de começarem a correr pela praia da Gamboa, estavam ajoelhados numa esteira (em direcção a Meca presumo). O cão viu-os e sentou-se ao lado. Eles divertidos, olharam para mim e responderam ao meu “bom dia” com um “Bom dia amigo”. Antes de chegar ao pé deles, dois cães adultos passaram por mim e olharam-me com desprezo. Vinham, como eu, espantados com a quantidade de lixo espalhado pela areia da Gamboa. Ao meu olhar responderam com silêncio, mas lá no fundo bem sei que me apontam como o filho da puta responsável pela miséria do mundo e pela quantidade enorme de lixo onde se viam obrigados a viver. Filho da puta, eu. Claro. Duas horas mais tarde, ao telefone, uma voz feminina confirmava as minhas suspeitas. Sou mesmo uma filha da puta. Na retina, enquanto ouvia a ratificação do meu carácter, um cão muito pequenino, do tamanho de um ténis de basquetebol corria atrás de dois amigos sorridentes. Corriam muito e o cão nos seus passos de bebé também corria. Os dois homens não fugiam do cão, bem sei, fugiam do comprometimento de uma relação para sempre. Eles que não têm futuro nenhum aqui. Fui-me embora sem saber o desfecho, como faço com tudo na vida. Porque sei que tudo segue sem mim. Porque sou cobarde demais para sentir assim tanto. Imagino que às tantas, um dos homens terá desistido de correr e aceite a inevitabilidade daquele encontro. Tiro o meu ipod, ajusto o volume, sigo em frente com as mãos vazias e no lugar no coração a dúvida da minha condição: homem ou bicho.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

iguais...

Às vezes apanho-me pensando que se calhar um pouco de Bach, ou mesmo Beethovem, resolveria grande parte da brutalidade e da insipiência entre nós. Mas isso deve ser pretensão minha.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

sacanear as palavras...e o tempo...

Eu não sei. Não sei de nada, diz outro. Aquele diz que sabe, mas não sabe nada. Também não sabe. Um pretensioso é o que é. Agora com a mania de escrever nomes. No fundo não entende nada disso nem daquilo. Pensar? Hahahaha, pensar é o que ele pensa que faz…quer dizer, acha que pensa. Aqui ninguém pensa nada. Nenhuma causa é de ninguém, nenhuma contenda diz-me respeito. Nada é directa nem indirecta. Tudo, mais ou menos destinado ao fiasco. Ninguém lê, ninguém ouve, ninguém sente. Todos lêem e entendem, todos ouvem e guardam, todos sentem e angustiam. Somos uns sacanas. Comemos búzio com palitos e putas à cavaleiro. Pioneiros na descoberta do universo, tiramos dali pomos aqui, bebemos ali cuspimos aqui. O Google e a wikipédia que se fodam. A fraude, a fraude. Não senhor. A pesquisa e a curiosidade, dizem eles. Sozinho o povo não chega lá. Passar a língua pelos dentes e limpar os restos de comida, da gula e do odor a predador. Somos todos pobres e miseráveis. Aqui ninguém se alimenta de nada. Passamos fome e morremos de ignorância…se pensarmos. Por isso, voltemos às putas e às igrejas, às tangas e às transparências, à carne e à promiscuidade. Meter um dedo no buraco e cavar o prazer. Ouvir gemidos e sentir a mão humedecida. Sacanas. A imprescindível masturbação. Diz que sim, que é bom. Sim é bom. Digo. A masturbação da carne. SMS: o que é que se passa contigo? SMS resposta: Nada. Segue o baile, o encaixe e a transpiração. Um vírus por aí e tu com esse ar de idiota discutindo merdas insignificantes. Escrevendo frases dementes. Guerras, que guerras? Aqui ninguém gosta de guerras. Somos pacíficos. Somos cobardes. Nunca combatemos. Por nada. Por tudo. E a plantinha ah? Compraste a plantinha para beber as gotas do ar condicionado da capital? Não? Vês, não passas de um idiota egocêntrico com manias de grandeza. Proxeneta, vadio. O mundo nas minhas mão e eu à espera do churrasco para levar. 350. Os miúdos passam fome e pedem moedas à porta dos bares e cafés, os jovens precisam da droga e lavam carros, as meninas desesperam-se com o andar da vida e abrem as pernas. Está provado. A vida avança mais rápido se for de pernas e mentes abertas. Pecaaado, ultraaaje, heresiiia… gritam. Vida, somente vida, nada mais. As cheias, os incêndios, a seca, o desgelamento dos pólos, o tráfico de seres humano e a minha unha encravada. O mundo tão pequeno e tão misterioso, a mente tão capaz e tão limitada. O umbigo.
Imagens: Aaron Hawks

sábado, 24 de Outubro de 2009

playing Chess...

Acerca do lançamento do livro biografia política de Carlos Veiga e dos respectivos comentários, tenho duas notas a deixar: - Claro que foi um golpe de marketing. Eu faria o mesmo. Os nossos bloguistas, comentadores e críticos pecam por serem por demais inocentes na leitura do jogo político. Queridos, estamos a falar de política, nada é inocente. - Estranho muito o medo dos caboverdianos em participarem de um evento que seja de uma força política contrária à sua. Como pode haver crítica na ignorância? Estranho que os jornalista e seus respectivos órgão façam a mesma leitura do que os militantes e se escusem de investigar, ler, criticar. Estranho que se façam comentários sobre um livro que nem sequer se leu. Continuo a ser extremamente surpreendido pela tacanhez de espírito, pela falta de curiosidade intelectual não só dos agentes políticos, como dos quadros e dos que se atrevem a ter um blog ou uma coluna e se limitam basicamente a debitar impressões emocionais. Estranho que muita gente se contente a reproduzir o mais naif da crítica de esquerda e se limitem a ser artista de variedade, manipulados por interesse próprios. - Nota avulsa ao Redy: Nem Weber nem Bourdieu servem-te para criticar se ficares somente por aí. Tenta ler o livro e verás que tens material concreto para análise. Depois usa weber, Bourdieu, Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca ou Robert Michels. Anyway, aqui na terra como diriam os americanos “If you don't want to be criticized: say nothing, do nothing, be nothing.”

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

pessoas...

A falta de leitura, de paciencia para estudar (sem que isso necessáriamente nos dê um diploma) faz com que estejemos sempre a opinar e debater no lugar comum. Não desgosto de Saramago. Entre Saramago e seus entusiatas prefiro António Lobo Antunes. Como ele dizia, ontem, na entrevista à Judite de Sousa, referindo-se às declarações de Saramago "O que eu senti, dos poucos ecos que me chegaram, foi medo. Medo por mim. Medo de chegar à idade dele com tão pouco sentido crítico."

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

liberdade...

Para que não haja dúvida: existe liberdade de imprensa em Cabo Verde, o que não existem são cojones para levá-lo ao extremo.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

a critica do 69...

A rebeldia é algo tão bem visto nos dias que correm que se inventam causas e casos para se poder manifestar do contra. Aqui, a título de exemplo, a cultura é a bandeira de luta de quase todos os que se querem afirmar no mundo dos rebeldes. O ministro da cultura é uma anormal, sim claro, mas a comunicação social e os jornalistas também. Todos lêem os comunicados de imprensa letra por letra, passando ao público exactamente o que os ministérios querem passar. Um jornalista, com a experiencia de José Vicente Lopes, escreve semanalmente análises com clara tendência partidárias (PAICV) e não passa nada. Como que por Milagre Corsino Tolentino ressurge das cinzas e é massivamente promovido, quer pelo ministério dos negócios estrangeiros (Governo), quer pela televisão pública, quer inocentemente por alguns blogueiros que vão na conversa mansa do velhote. Questionem meus queridos, questionem. Toda a imprensa nacional é manipulada e distorcida por duas vias: directamente pelos interesses dos proprietários e segundo pela crónica preguiça mental da classe jornalística, que se limita a reproduzir comunicados, notas de imprensa e ocorrências. Por outro lado, os novos media, blogues inclusive, acabam por ir na onda do entretenimento, da autopromoção, do achismo e da rebeldia fácil. Sem dizer o claro dirigismo partidário de alguns blogues, cujos autores acham que devem ser o espelho dos interesses partidários. Claro, porque não existe nenhuma greta nesta sociedade que não esteja contaminada pela guerrilha partidária. Mas afinal o que acontece com os que opinam? Com os que escrevem e têm opiniões. Absolutamente nada. Porque apenas uns poucos tem acesso aos bastidores e suas dinâmicas. O que se passa aqui é a falsa sensação de “criar opinião” que as novas ferramentas dão. Mas isto aqui, como diria o outro é um jogo de xadrez. Os bobos só vêm o movimento que acaba de ser efectuado. Por outro lado, a falta de paciência para se esperar o reconhecimento, faz com que usemos os nossos espaços nos blogues, jornais e comunicação social para longas e continuas reflexões masturbatórias. Diria mesmo longas sessões de 69. Haja muita paciência.
Imagens: Dino & Jake Chapman

Será...mago?

Imagem: Tallur L.N
Não há nenhuma genialidade em Saramago vociferar contra Deus e religiões. Aliás nem contra Deus, nem contra homens. Mais que a liberdade de reinterpretar, recontar, opinar, reflectir sobre algo tão íntimo como a crença, existe aqui o uso desmedido de um capital social e intelectual (Nobel) para um golpe publicitário fugaz. A desconstrução intelectual, racional da ideia de Deus nos moldes em que Saramago o faz em nada afecta nem a crença, nem a tradição de quem por estrutura mental e filosófica tem quer a bíblia, quer o alcorão, quer qualquer outro manuscrito sagrado. O poder de criação das palavras de Saramago ninguém o tira pelo que diz. A criatividade, o poder de encanto e de inspiração da bíblia também não. Agora, o que é mais ridículo nesta história toda é a rápida concordância, essa onda de “olés” e heroificação, de genialização de Saramago por dizer o óbvio, se considerarmos o seu próprio percurso intelectual. A genialidade nestes tempos seria a capacidade para conciliar, unir, dialogar. Daqui escreve um caso sério de não crente.

ahahaha

Imagem: dino and jake chapman
Vomitei umas quantas vezes no dia nacional da cultura. Dizem que há um virose por aí…mas eu não acredito em coincidências.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

meditar...talvez

imagem: Andrea Gursky
Somos essenciais à morte. Carne, matéria, oxigénio. Somos essenciais à memória e ao silêncio. Somos feitos para sermos abutres, comemos a morte a adoramos. Não esquecer Mário Fonseca e Manuel de Novas é tarefa de algum recato…diria mesmo calma. É sempre mais fácil vestir a pele de abutres e desatar a bicar o corpo caído, por mais belo que seja, do que meditar (discretamente sublinhe-se) sobre o legado de…Mário Fonseca e Manuel de Novas.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

aprender com o cão...

Comprei um cão e tenho agora a clara noção do importante papel dos jornais impressos cabo-verdianos para as famílias crioulas. Agora sim, também eu sinto falta do tal jornal que anda em férias. 

focus...

Imagem: Helmut Newton

Há que render, há que ganhar dinheiro e pagar as contas, consumir tudo, criar altos padrões, mostrar aos nossos filhos que “nós” somos diferentes dos “outros”, desejar sempre o mais, ocupar cada espaço vazio em casa e na mente. Comprar, desejar, aspirar a ter o máximo, tirar um mestrado, um Doutoramento e aumentar o número de Universidades onde se dá aulas full time. O essencial é não pensar, não desviar e pensar em coisas estranhas, evitar a todo o custo opinar. Sim porque opinião é aquela coisa que nos transforma em dangerous indivíduos, capazes de vender o pai e prostituir a mãe. Focalizar, vamos mantermo-nos concentrados em ganhar dinheiro, gastá-lo em coisas caras e bonitas. Acumular, armazenar, amontoar, fazer uma poupança para o futuro… e amanhã continuar incansável, todos os dias, de manhã à noite à caça de dinheiro, de bufunfa, de cacau.  No fundo só isso interessa. Seguir em frente não importa como. Vamos importar hábitos burgueses, fazer festinhas ao miúdos para exibir o nosso bem estar, gritar nas empregadas, pagar colégios particulares aos filhotes porque a escola pública é um má influência para os putos, lá estão os miúdos dos subúrbios que são todos tugs- sem excepção - e miúdas muito novinhas dispostas a ter sexo inseguro para poderem dar o golpe da baú (tal e qual nas novelas)- enfim, umas putas . O importante é não perder o tino com merdas como artes e cultura, as reproduções chinesas e os quadros decorativos das lojas DEKo servem perfeitamnete. Gosto? Ver DVDs no plasma lá de casa é cultura e bom gosto também, pois claro.  Foder no sofá design ou no tapete “persa” também é. Tudo é cultura e arte, yuuupiii e comer algodão doce, ler os letreiros luminosos, comer pizza…etc e tal…mas nada de rodeios com merdas de culturas e arte, o fundamental é render, facturar.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

enquanto isso...

Imitando uma certa campanha publicitária: poderia viver sem teatro? Sem arte? Claro que sim. Mas a vida não teria tanto sentido. Enquanto o Joseph Mary sorri muito esforçadamente (para não dizer falsamente) num outdoor, um pouco por todas as ilhas, prometendo as respostas certas para os novos desafios, enquanto E. Medina se concentrava para reunir todos os argumentos que fariam de M. Inocêncio o candidato necessário (que grande treta essa táctica de recriar percursos, reler trajectórias e tornar indivíduos incontornáveis), enquanto J.Dono faz a cobrança dos pecados capitais ao governo, enquanto muitos artistas e suas vestes brancas ou excêntricas se esforçavam para mostrar que nenhum festival internacional é mais importante que a sua auto-estima (e por favor não falemos de amor à arte), enquanto se concretizava em cada dia, em cada novo espectáculo, a completa diluição do Ministério da Cultura, enquanto Mindelo se reinventa bebendo inspiração nas fraldas, enquanto a explicação do manifesto entorpecimento da ilha se revelava na ausência de praticamente toda a elite intelectual do país (que tal também falarmos, mesmo que sem consequências dos muitos Doutores, Mestres, escritores e cronistas) da plateia do teatro, enquanto Carlos Carvalho (quem não sabe quem é, também não interessa) finalmente descobre que podemos rentabilizar o nosso papel na rota de escravos (espero que não se esqueçam que para além de comerciantes também somos os escravos que vendemos, que mais do que glória temos sangue nas mãos e nas costas), enquanto o Éden Parque vai caindo por dentro, enquanto o tempo dá um bracinho à continua tragédia nacional que são os TACV, enquanto as cheias inundavam as ruas e a sala de espectáculo, enquanto a pressão psicológica foi aumentando em descaradas guerras de comadres: a torneira fechada, a parede por pintar… enquanto a própria comunicação social se limitava a fazer uma duvidosa escolha de peças elegíveis para cobrirem, enquanto muitos artistas estrangeiros de grande dimensão passeavam anónimos sua criatividade por um Mindelo inundado, os artistas nacionais (músicos, pintores, actores, escritores) de referências demonstraram que fazem parte da mesma casta que os políticos: vaidosos e complexados. Enquanto a única “escola” de artes do país fica escandalosamente à margem do Mindelact, para provar que é independente e tem agenda própria (quando o festival poderia ser uma grande escola prática), mais uma vez se provou que a cultura e a arte, são coisas não de lunáticos sonhadores (como se costuma propalar a sete ventos), mas de seres obstinados e apaixonados pela arte. Os eventos de relevância artística (excluindo portanto os apenas protocolares) são frutos do saber fazer, da experiencia, do espírito de pequeno sacrifícios, do colectivo e, isso sim, da crença que só a arte nos pode salvar da ignorância….e quiçá da completa demência.
Imagens: René Magritte

sábado, 19 de Setembro de 2009

peles...

Imagem:Joel Meyerowitz
Vamos “cobar” a chuva e dizer muitos palavrões, enormidades de vitupérios e ofensas em retribuição à sua maldade e destruição. Apressemo-nos em apontar o dedo a maldizer o feito e o desfeito, a ignorância e os mascarados - caras de lata- que ciclicamente aparecem na província pedindo honrarias pelas mesmas adivinhações de cada ano. Não hesitemos em culpar o governo e a oposição, a Electra e as câmaras municipais pelo esquecimento do pós chuva, pela insensibilidade às lágrimas de quem é apanhado pela flagrante da dor quando uma câmara da TV nos surpreende numa reportagem. Isso e o homem que tem por colar uma chave real, que abre uma porta real, que por sua vez guarda dentro uma vida real. O homem e a sua chave gritam à porta do café Lisboa “ oh irmon ka bocê virá bo irmón costa home!” e perante a indiferença de todos “ Deus Tem”. Frase que não alivia em nada a minha certeza de que nada disso tem a ver com Deus. Aliás esclarece muito da sua natureza.
Imagem: Nan Goldin
Passam turistas felizes, passam homens da terra pensativos, por certo comparando tempos, passam mulheres de rabos arrebitando saltando cheias imaginárias. Olho sereno para tudo e lembro-me de uma citação de Paul Auster em “Solidão Reinventada”, qualquer coisa do género: “ Quando estamos perante realidades extraordinárias a consciência toma o lugar da imaginação”. Mas a televisão ensina-nos que poderia ser tudo bem pior. Enquanto isso imóvel à porta do café, uma camisa amarela desbotada e o homem que leva dentro, penteiam com as unhas da mão direita o lado esquerdo da barba grisalha. Espera, espera, espera, mete o dedo no nariz e alisa a cabeça careca. Repete-se infinitamente, enquanto olho e em cada instante em que não estou presente. Como em tudo, tudo acontece no mundo e aqui sem que para isso seja essencial que eu exista.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

iludir-nos...

É fácil cair no desespero num país com duas opções de voto. Se não votas num votas noutro. Se criticas este és daquele. Escrevo desespero, porque para mim voto em branco não conta (apesar do seu poético significado). Nunca irei votar em branco, a minha decisão terá sempre um sentido, uma aposta, isso apesar do meu claro desprezo pela grande maioria de políticos cabo-verdianos. Mas acordei optimista, por isso nada de dramas, faltam ainda quase dois anos para as legislativas. Até lá, ainda tenho a esperança de que surja algum movimento renovador, quanto mais não seja para nos iludir quanto a uma terceira via.
Imagem da peça:Começar a terminar(palco do Mindelact)

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

la Barbie loca...

Afinal JMN, Janira H.Almada e aquele partido que usa uma estrela negra por força de hábito, sempre têm sentido de humor. Ganham o meu respeito pela frontalidade com que assumem o fim de um ciclo, a naturalidade com que dizem “sim, estamos caducos, sim perdemos a memória e não nos lembramos de nada.” Ao fim de quase uma década no poder, após o quase total embranquecimento dos cabelos do “jovem” Joseph Mary of the Snows e da sua tez, Janira H. Almada vem a pedido do líder, “Dele”, “O” Primeiro Ministro prometer: “Diminuir o desemprego na camada jovem, promovendo o auto-emprego e o empreendedorismo; garantir meios para continuação dos estudos no Ensino Superior e criar condições de modo a facilitar o acesso dos jovens à habitação própria.” Dá-me vontade de rir, assim de mansinho e ir subindo o tom e a intensidade da gargalhada…mas não me apetece... porque além de saber que eles não iriam entender a ironia, todos os loucos merecem o meu respeito, principalmente quando sobem no púlpito e em tom de seriedade anunciam a divinização do seu líder “ele, também, representa a liderança que detém as respostas e soluções para essas novas expectativas, nesses novos tempos”. Esse tratar JMN por “ELE” tem uma dose de insanidade. Entre outras coisas lembra-me este tipo... Novos tempos? Novos desafios? Não me fodam o juízo.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

isto ou aquilo...

Comédias do Minho
Até ao exacto momento em que escrevo este texto, sentado numa mesa da sala do Mindelact, sinceramente não sei qual foi o meu momento preferido. Se ver a cara de excitação das freiras ontem, na peça Auto da Paixão do grupo Comédias do Minho, se comprar dois livros de Ruy Duarte de Carvalho por duzentos escudos, se contemplar a barriga inflamada de Flávio enquanto Valdemar Santos uivava feito cão, os dois ao pé do auge,
Enano
se minha improfícua insistência em procurar Jorge Marmelo no fim de cada espectáculo, como sempre encostado à parede fumando o cigarrinho, se a noite entre a malta do Mindelact e as “meninas” de domingo no Ka Ten, se ver um Enano meio crazy caricaturizando a óbvia demência dos lideres mundiais e sua vã tentativa de se isolar do mundo refugiando-se num balão amarelo ou simplesmente ver Bento Oliveira saindo do quarto tagarelando “ahoje n ta sima um cometa, ninguém ka ta parám”.
Flavio, Valdemar e João
Para não esquecer: a imagem dos meninos da Ribeira de Craquinha subindo as escadas, tomando assento, lotando a sala para ver a peça Auto da paixão. Uma fotografia perdida: o sorriso de um estivador e a frase: “un cre dós entrada pe teótre, aoje un ti ta trazé nha menininha pe teótre.” Para esquecer: a ideia de ver toda a comunidade artistica mindelense à entrada da sala de espectáculos. Isso tudo ou a menina que se sentou ao meu lado na ponte em frente ao CCM, dizendo-me que era puta e que também gostava de silêncios.

ratos...

Não gosto de ratos embora confesse que não tenha nenhum motivo especial para odiá-los. Não gosto de ratos simplesmente por serem ratos. Seres escorregadios e nocturnos. Não gosto de ratos porque fazem-me lembrar os seres humanos a quem costumo comparar com ratos. Na verdade não sei se desprezo mais aos ratos ou a esses tais seres humanos. Presumo que a esses últimos. Vejo-os com mais frequência, leio-os com mais atenção do que gostaria. Tudo porque o desprezo, o ódio, a indiferença são sentimentos vis, anti-natura e têm que ser alimentados com uma certa dose de racionalidade. Tudo isso desgasta-me por saber muitas vezes covarde, incapaz de correr atrás desses bichinhos (afinal inofensivos) e pisá-los a cabeça com a vassoura, cegá-los um spray anti-baratas, moscas e mosquitos (bicos são bichos), aconchegá-los com nojo numa folha de jornal, deita-los fora pela janela e sentir uma ânsia de vómito pela simples ideia de um contacto na pele. Assim deveria eu ser, firme e convicto na hora de desarrumar a casa à procura de ratos. A boca a espumar, os olhos arregalados a garganta seca e o pensamento “ de hoje não passa. Hoje não dormirei com ratos em casa”. Assim deveria ser. Deste modo, não haveria ratos escribas, ratos poetas e políticos. Não haveria ratos brochistas e prostitutas, não haveria ratos cultos e amantes da cultura…o próprio bloguer perguntaria aos assinantes antes de criarem um blog: Rato ou Humano? Pergunta à qual os ratos responderiam sem hesitação “Humano” e os humanos hesitariam perante uma súbita dúvida sobre a sua própria condição. Mas pior de tudo, é esse sentimento de ter alimentado ratos com as migalhas que deixei cair. Mas ratos não vivem muito.
Imagem: Paula Rego

domingo, 13 de Setembro de 2009

Pintura: Alyssa Monks
O meu amor confesso por Mindelo não faz de mim propriamente um tipo especial. Como noutras coisas na vida, a amor é algo sempre patético, ridículo e demodé ( não tenho bem a certeza de que se escreve assim). O amor é feito de pequeno caprichos, gestos e acontecimentos. Ódios e desentendimentos. Por defeito genético, no amor sou débil à beleza e tenho um fraquinho por olhos tristes…por corpos que se abandonam ao sadismo da minha inconstância.

sábado, 12 de Setembro de 2009

literatus cultus culus...

O Mindelact não é o maior festival de teatro do país e da costa africana. Dizer isso é treta. Falemos sem chavões e megalomanias. Vamos ser realistas: Mindelact é a única instituição cultural nacional que de facto funciona. Na Praia temos o CCP, o CCF, o Centro de estudos Brasileiros com programação própria. Desses três, destaco pela constância e militância o papel do CCP do seu director: João Neves. A nível nacional o Mindelact é a única instituição que educa, forma e tem por isso, um papel de extrema pedagogia no contexto artístico do país. É também a prova do país de bimbos que somos, quando se fala de festivais de música pelas ilhas, vemos grande caravanas de jovens e graúdos enchendo aeroportos, dispostos a todos os sacrifício para saltar nas areias pelo país a fora. Mais uma vez preocupamos pela forma e descuramos o conteúdo. Ou seja, os jornais, a televisão, a imprensa em geral anunciam o evento como o maior e mais importante, as entidades oficiais dizem também que sim, os blogueiros, jovens quadros, intelectuais e VIPs do país lêem e até falam disso nas suas conversas de café…mas depois nada disso tem uma materialização efectiva nos hábitos. A imprensa anuncia mas não está aqui permanentemente fazendo cobertura, entrevistando os actores, diria até transmitindo em directo um ou outro espectáculo. Enquanto isso os jovens quadros preferem almoços restritos onde babam-se no espelho chamam-se uns aos outros “elite”. Claro, depois há génios que dão cara nos jornais insinuando que as gerações futuras estão a ser ameaçadas por influências estrangeiras no nosso teatro. Nosso teatro?? Essa é boa. Vendo os resultados do Mindelact…então precisamos mesmo é de um invasão nacional. Depois, desse palavreado todo, voltamos ao inicio, só para dizer que Mindelact é sim o maior festival de Teatro de África…mas é melhor ainda para quem compra o bilhete e vai aos assistir aos espectáculos.

cri cri cri cri...

Não há nada como a crítica e o espírito crítico para agitar a calmaria de ser ilhéu. Aqui, a blogosphera democratizou a opinião, alargou o leque de opções na hora de saber como pensa o país. Mais opinião e mais exercícios teóricos na vã tentativa de (re)criar um país que passa mesmo ao lado dos doctors. A blogosphera também tem demonstrado os limites da honestidade intelectual e da deselegância de muitos na hora de pensar. Sim porque pensar é algo mais de cavalgar em cima de literatura e citações, de prosa partidária. Há de facto muito palavreado e pouca militância. Convicções emprestadas, que nunca chegam a ser encarnadas. Na net todos anunciam eventos, livros, discos…um mundo imenso de possibilidades…mas na hora de dar a cara, de participar, de comprar o bilhete e investir… são como as manifestações: todos apoiamos e achamos certas as causas, mas na hora de gritar os slogans e encher as ruas: o vazio. Primeiro as contas para pagar, as mármores da cozinha, a alimentação dos caprichos da nova geração de cabo-verdianos dos condomínios fechados e do computador Magalhães . Por natureza somos um povo demasiado snob para passarmos da teoria à acção, para sair do conforto e misturarmos com a gentalha. Temos 500 mil analistas e críticos ao governo e ao desempenho da oposição, mas calamo-nos assim que o tacho chega à mesa onde comemos. Não vejo nenhum Obama entre nós. Imagem: Sarah Lucas
Cabral ami é bu fã. Escuso-me de fazer de burocrata das palavras calando-me perante a clarividência do poema de Sophia de Mello Breyner publicado ontem pelo Café Margoso.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Gosto de comprar os jornais nacionais para ler os titulos dos artigos de opinião e crónicas. Assemelham-se muito aos discursos politicos da nossa classe politica que por sua vez têm uma irónica semelhança com o nome do nosso país. Imagem:jenny saville

Bona...

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

nobreza...

Pouco a pouco vamos descobrindo as semelhanças genéticas e sociais entre nós e o nosso passado, nossos pais e demais antepassados. Aliás, a família tem essa missão desde os primeiros dias de nascimento: identificar os traços, recolher escrupulosamente cada detalhe, cada feição e catalogar a sua respectiva correspondência na árvore genealógica. A família também tem a tarefa de ocultar os podres da casta e desenhar para a geração futura uma magnífica fabulação do passado familiar. É assim que hoje, a nossa sociedade de base escravocrata, de repente, se transforma numa fina corte de nobres e fidalgos, onde poetas, artistas e cortesãs confundem-se com a realeza democrática do poder e estes ganham sangue azul vitalício à custa das jóias e do tesouro do estado…auto brindados pelos bons serviços à nação. Na aristocracia nacional, cada vez mais consolidada, hoje convivem os filhos dos melhores filhos da nação e sua dinastia, mais os filhos da “geração democracia” e sua dinastia, ligados não apenas por laços consanguíneos mas por interesses estratégicos na manutenção da condição de nobres. Nos bailes e festins renovam-se os votos de fidelidade e redesenham-se os mitos para a conservação desta sociedade justa e democrata. Uma corte é sempre uma corte, mesmo que hajam bobos em sobejo. …Isso ou “a inanidade de tentar dizer o que quer que seja sobre quem for.” (Paul Auster)
Imagens:Rembrandt

linhas...

Para se identificar a origem das coisas, muitas vezes nem é preciso ir muito além no tempo. Nem é preciso ler a “História geral de Cabo Verde”, mergulhar a cabeça nos bons tempos de investigador de Gabriel Fernandes “Em busca da Nação” ou reler de olhos regalados “Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde” de José Carlos Gomes dos Anjos. Para saber a origem do nosso estado civilizacional, para entender o porque do perfil dos nossos políticos e o avassalador descaramento na apropriação do património do estado em benefício de alguns, basta pegarmos em duas palavras plenas de consequência no nosso presente: memória e esquecimento. Sendo que a memória não estando dependente da nossa consciência, mas da nossa integridade intelectual como povo, tem vindo a ser deturpada e enviesada pelo exagerado uso do esquecimento por parte de todos nós. Lembrando Santo Agostinho: Seremos assim tão pequenos que não temos “espaço” para conter nossa própria memória?
Imagens :Mark Bradford

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

(des)afinar...

Ao contrário do que muitos possam pensar eu não sou , nem posso ser contra a onda zouk. Composições e álbuns do tipo “ família” de Heave H, “Totalmente di Bo” de Beto dias ou as rimas dos rappers di terra. Aliás, é do género de coisas que nem se permite ser a favor ou contra, simplesmente é uma questão de gosto. Aí sim, entra não simplesmente o bom ou o mau gosto, mas o sentido de apuramento do gosto. O treino da sensibilidade. Um gosto pouco apurado pode em grande parte dos casos ser equiparado a um mau gosto. Não conheço ninguém que tenha nascido com mau ou bom gosto. Se existem predisposições, sem treino elas de nada valem. Acho engraçado a nossa cultura de conotar com”armado em Bom” ou “intelectualismos” toda a negação do trash e do cultura musical fácil que temos vindo a promover em massa, quer nas rádios quer nos nossos festivais. Perante tal atitude apenas mando umas valentes gargalhadas a quem quiser, principalmente porque já estivemos num outro patamar, com músicos e composições mais apuradas, mais ambiciosas, mais humanizadas (no sentido de que não era musica programada em Pcs e Macs , mas com instrumentistas reais). Ouvindo Finason em musicas como “Dotorado”, “Kem ki bem ki ta bai”, “Rabencidade” ou “Nhota Barela” dá-me vontade de pedir um regresso no tempo. Se pegar em Vlu e suas insistentes tentativas (muito frutíferas) em criar um nova linguagem para uma música mindelense urbana, qualquer um pode concluir que já tivemos melhores tempos. Hoje, enquanto porfiámos em apostar no mesmo, há jovens cabo-verdianos em secretas experimentações, em ousadas audições domésticas. Palcos precisam-se.
imagens: Zhang Haiying

Politicos e os outros...

Imagem:Zeng Fanzhi
“Dezoito (18) deputados votaram a favor e quarenta e um (41) deputados formalmente se abstiveram. Esta abstenção não é mais do que um disfarce para camuflar o posicionamento efectivamente contra o aumento de verbas para as associações de consumidores. Esta massiva “abstenção” diz muito sobre a qualidade do parlamento, da idoneidade de muitos deputados, da fragilidade da política cabo-verdiana.” Jornal “A Nação”, numero 104/27/08
NO COMMENT.

a tabuada e os nove fora...

Se em Cabo Verde dizer que não se fez nada nesses últimos anos, nos dois mandatos do PAICV é uma mentira chapada e uma vã tentativa de exercitar a preguiça, por outro lado assumir as obras, os feitos e as políticas dos últimos anos como cabais e satisfatórias, justas e imparciais, acertadas e universais (no sentido de abrangerem todos os cabo-verdianos), se considerarmos o desempenho do governo como a melhor performance possível, tudo passa a ser pura blasfémia. Na verdade o único defeito deste país é não ter havido uma oposição inteligente durante a governação PAI…e claro, o facto de o MPD não ter a OMCV, ups desculpem, queria dizer uma base de mulheres ventoinhas tão motivadas, barulhentas e boas organizadoras de jantares de charme para o seu líder Uma nota muito vaga: surpreende-me que os tambarinas digam que o anunciado regresso de C.Veiga à liderança do MPD seja sinal que o partido não se quer renovar, quando no PAICV Joseph Mary Of The Snows esteja preso às vontadinhas e caprichos dos camaradas. Quando os prováveis candidatos à liderança da estrela se vejam obrigados a congelar suas ambições. Dito isso resta apenas repetir, para o pesadelo de alguns, que Filú (depois de ter sido negado pelo eleitorado da Praia) foi eleito para um cargo regional do partido, tendo como adversário outra ovelha velha do partido. Renovação mesmo seria ver Edson Medina candidato e não menino de recados, ver Janira H. Almada e Nuías Silva nos palanques conquistando votos. Ver Veríssimo e outros quadros em situação de chefias a assumir o partido no terreno em vez de encomendarem o seu ganha-pão antes do fim do mandato. Do outro lado, ver Miguel Monteiro, Casimiro de Pina, Luís Carlos Silva, João Dono e Milton Paiva na hora da verdade, na hora de constituírem, de construírem um discurso novo. Ver essa nova geração ventoinha, a nova geração tambarina com mais pragmatismo, com mais terra no sapato, menos bla bla, bla e mais terreno. Além do mais, deixemos de tretas, ninguém quer a renovação. Quem está no poder quer lá ficar e quem está na oposição que chegar ao poder, mesmo que para isso “renove” com antigas armas. Mudando de assunto, lendo alguns blogues di terra dá-me vontade de escrever que os meninos do partido deveriam escrever no site do partido, nos blogs das juventude partidárias…sei lá nos panfletos políticos divulgados hoje muito tecnologicamente via mail… ou então que criem blogs sobre culinária….ou melhor ainda: aproveitem o verão e comprem um baril de cerveja e emborrachem-se. Ok, ok, democracia e tal… Mesmo assim, convém dizer que aqui há pouca ironia.
Imagens:Yue Minjun

...ai que medo!!

Zhang Xiaogang.
Estou aterrorizado. O Veríssimo Pinto disse a um jornal online que vai processar todos os que tiverem insinuado que houve favorecimento político no caso dos terrenos da Prainha…e jura que não há incompatibilidade entre seu cargo e esse pequeno negócio que implica um despacho especial do governo a seu favor. Esta terra deixa-me confuso. Se Obelix conhecesse Cabo Verde, provavelmente a expressão seria “esses cabo-verdianos são loucos!”

segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Tanto para dizer…

Há sempre tanto para dizer. Tanto para dizer e tão poucas penas interessadas em apregoar, tal como o juramento nos julgamentos dos filmes: “ juro dizer a verdade, somente a verdade, não mais que a verdade.” Tudo porque a verdade é algo que transgride, fere, acompanha-nos como um espelho a vida inteira. Tudo porque a verdade não dissimula, não usa maquilhagem, não se prostitui. Mesmo quando escondida e dissimulada por alguns, continua firme e real. Até ao dia em que para o espanto geral é revelada, claro. Isto faz-me lembrar aquela do chocolate: “o chocolate não engorda…quem engorda é você”. Pois bem: “a realidade não nos ilude com mentiras, quem se ilude e se perde é você”. Nós. Sei que logo, logo um desses políticos natos da nossa pátria há-de escrever que tudo depende da perspectiva e dos pontos de vistas, etc e tal. Há que contrabalançar as dificuldades com os ganhos desses trinta e tal anos de independência, dizem, escrevem, contentam-se.
Pois, eu digo que não basta, que não me dou por satisfeito. Para reforçar a falta de originalidade deste post resta dizer que para tantos jogos de cintura, tanta injustiça social, tanta miséria em que vivem milhares de cabo-verdianos, tanto faz de conta que somos, tanta desigualdade na hora de satisfazer as mais básicas das desigualdades… resta dizer que o que mais custa é o silêncio dos nossos homens BONS, dos nossos grandes homens, das nossas grandes referências, dos intelectuais, dos políticos que já não se encontram na linha da frente, dos nossos académicos, mestres e doutores, do nosso Reitor da Universidade Pública, da nossa comissão dos direitos humanos, das dezenas de ONGs que compactuam em silêncio com as calamidades dos mais vulneráveis, enquanto esperam as ninharias de que sobrevivem. O tal esforço, o tal apertar o cinto, os tais sacrifícios que esta geração tem de fazer para o bem da nação está mal equacionado. O que recebo em troca desse sacrifício não me compensa. Em vez de promover o regresso de toda a massa cinzenta cabo-verdiana que reside no exterior, contentamo-los com o mais rasca, com a geração de cantores do zouk, de homens de milagrosos sucessos na emigração. Esses que importam automóveis de luxo e pagam os salários da administração pública em taxas alfandegárias. Esses que constroem luxuosas arquitecturas de mau gosto. Esses que invariavelmente acabam mortos em estranhos incidentes mediáticos ou presos com levíssimas penas, saindo poucos anos depois por bom comportamento.
Parecemos trapos amarrados a muito custo, pendurados numa parede descolorida pelo tempo…exibida como obra de arte de tempos futuros…que no fundo é passado. Os grandes ideais para Cabo Verde morreram com a primeira geração de políticos deste país. Com os que mais directamente conviveram com Cabral. Já não teremos homens da estirpe de Aristides Pereira, António Mascarenhas Monteiro e Pedro Pires à frente desta nação. Se me perguntarem porquê, a resposta é simples: por mais habilitados, mais estruturados que seja a nova geração de políticos e estadistas cabo-verdianos, estes já não se regem por valores, por ideais, mas por Standarts, por padrões, por acordos e por laços de gratidão com instituições e entidades alheias ao espírito da fundação da nossa nacionalidade.
Resta deixar apenas uma nota ao governo e ao partido no poder: mesmo que a lei cubra, por decretos, portarias, despachos, acordos e acórdãos especiais, nada apaga o óbvio dos actos de traição ao povo que vos elegeu: a imoralidade dos vossos actos.
Imagens de Jan Voss

...notas deixadas para depois...(II)

O Governo autorizou a câmara a autorizar Veríssimo Pinto a avançar com o seu restaurante no terreno em frente à Prainha porque o dito tem interesse turístico. Sublinhe-se: autorizou a autorizar, mas tem de ser a Veríssimo Pinto, a mais ninguém. Não há nada de imoral nisso, suponho que isso seja democracia e boa governação. A Janira H. Almada fez publicamente, no telejornal da TCV, aquilo que em situações normais seria entendido como uma ameaça à câmara municipal, mas suponho que também isso seja o significado de Estado de direito, pois segundo ela as leis estão a favor da decisão do Governo. Alguém terá escrito que as leis injustas não são para cumprir, mas somos aquele povo inocente onde ninguém é culpado de nada, os culpados são sempre “as pessoas” (muito abstractamente).
Janira, Zé Maria e o PAICV podem até ter razão legal, ter os instrumentos legais que os ilibe de qualquer crime por terem cedido preferencialmente um património do estado a um amigo do peito, mas nada me impede de suspeitar que seja tráfico de influência, nada me impede de chamar a isso: uma grande filha da putice para com o povo cabo-verdiano. Mesmo que o povo esteja-se a borrifar para estas coisas... até ao dia em que poderá cobrar cada traição com uma cruz. O que me consola é a clareza com que se fez tudo isso, nem foi preciso gastar dinheiro público em concursos públicos de fingir. Por estas e outras, dá gozo voltar a fazer parte deste circo…trajado de animal feroz semi-domesticado.
Imagens: Paul McCarthy

notas deixadas para depois...(I)

Paul McCarthy
Voltei para a terra santa para onde todos voltamos quando o mundo troca-nos a volta e sentimo-nos perdidos. Há quem não tenha mesmo outra solução. Há quem cá esteja e volte por opção e por escolha. No meu caso, porque sou cabeça dura demais para dar razão aos pregadores do paraíso e aos profetas do fim dos tempos. Voltei porque decidi ser um osso duro de roer, porque vou dar a volta ao estômago a quem não me quer por aqui. Praia é peculiar na sua forma de dar as boas vindas. Chego à casa a luz cortada por falta de pagamento de facturas que eu nunca vi, o meu carro continua na oficina porque a seguradora do gajo que me destroçou o carro achou por bem adiar os expediente porque eu iria estar fora por mais tempo. De resto hoje chove…por isso é um bom dia para voltar ao reino dos vivos na blogosphera…

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Voltar...Redemptions Songs

Daqui a umas horas estarei de volta...com o meu filhote nos braços e não há alegria maior que esse futuro antecipado. Os próximos dias, provavelmente serão poucas as linhas rosas! Mas fica aqui a linda voz de Cassandra Wilson...

os pequeninos (quer dizer os pepinos) e as mamãs (também podem ser os papás)...

Escultura de: Ron Mueck

satirizar...

Imagem: Jake& Dinos Chapman
Ainda na sequência de Manhattam de Wood Allen, a propósito desta passagem:"No, physical force is better with Nazis. It's hard to satirise a guy with shiny boots."Lembrei-me dos políticos cabo-verdianos(alguém diria políticos em geral, mas fico pelos cvs).Não que os esteja a chamar nazis(não vamos exagerar). Refiro-me à extrema insensibilidade desses à sátira ou à ironia. Ninguém se sente afectado. Parecem os donos da razão, sempre indiferentes. A carapuça nunca serve a ninguém. No mínimo...perturbante.

Manhattan- Wood Allen

Existem tipos fantásticos, impossivel de se ser indeferente ao olhar claro e sarcático que deitam sobre o mundo. Wood Allen é um deles. Hoje, revi Manhattan e entre os muitos diálogos de fina ironia escolhi esta: "(Diane Keaton no papel de Mary Wilkie) -I was tired of submerging my identity to a brilliant, dominating man. He's a genius. (Wood Allen no papel de Issac Davis)-He was a genius, Helen's a genius, Dennis is a genius. You know a lot of geniuses. You should meet some stupid people. You could learn something."

quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

Carmen Souza...power

Hiroshima...64 anos

Por falar dos EUA, num dia como este, 6 de Agosto de 1945, por ordem do presidente Truman caía a primeira bomba atómica sobre um aglomerado habitado por civis inocentes. Uma experiência, um aviso, uma estratégia...chamem-no o que quiserem, eu penso em crime contra a humanidade. Nunca esquecer Hiroshima. Daqui a três dias lembramos Nagasaki. Sem memória, o futuro será sempre inconsequente.

lendo blogs...

Escultura:Daniel Edwards
Acabadinho de chegar do cinema para ver a estreia de "Inimigos Público", dou uma boitinha pelos blogs berdianos com posts recentes. O profeta João Dono anuncia que Joseph Mary of the Snows sempre se candidata à Presidência da República e eu faço-me de São Tomé e finjo que não li nada sobre o tema. Fico contudo entretido a ler o post de Edson Medina sobre a visita de Hillary Clinton e mete-me uma vontade enorme de dar gargalhadas (sei que é desta que o reconvertido rapazinho tambarina vai sair de si e mandar uma daquelas piadinhas à brasileiro, batendo no peito "eu nunca saí, eu nunca saí, eu sou PAICV, sempri n' fui i n ta bai tin mori" e eu claro, claro, isso muda imenso a minha vida, claro). Digo gargalhadas, para não falar em pasmo ou um desses brancos repentinos (upss, não me lembro de nada). Por ter algumas dúvidas, e saber que o Edson deve ter informações que eu não tenho (essa é uma das vantagens da militância), quero pedir alguns esclarecimentos, porque foi tudo um pouco vago: "Ciúmes"?-Como, quem, onde, porque? Defines Ciúmes como o quê precisamente? Alguém cobiçar algo nosso ou ter inveja?? Neste caso o quem inveja quem(o dos senegaleses ficou claro, mas acho que quiseste ir mais longe). "personificar uma parceria estável, nesta sub-região"- Com isso queres dizer o quê concretamente? Um país facilmente controlável, manipulável? Do género nós ajudamos com money e quando precisamos os gajos não vão negar? "colocaram[os EUA] este arquipélago na agenda do Governo, o que nos abre grandes perspectivas"- explique-me por A mais B isso das grande expectativas, sim porque em Cabo Verde, todo o mundo fala em possibilidades, perspectivas, enormes isto e aquilo, mas sempre em abstracto...explica-me o que tu vês na tua bolinha de cristal de cientista político e alegra-nos a todos. "Nós de cá e por cá, fazendo "papel de urso", tentamos minimizar a visita, relativizando os dossiers a serem discutidos e o papel que o nosso país desempenha, actualmente, no cenário internacional!"- uiiii essa doeu...só um esclarecimento(se estiver errado corrija-me), pois eu pensei que: nós não iríamos discutir nenhum dossier, que apenas ser-nos-ia comunicado os planos de Obama. Também era claro para mim que nós não desempenhamos papel nenhum: que seremos usados (no sentido lato do termo, o que inclui putas e diversão) como um ponto estratégico quando for oportuno, por outras palavras, que não temos alternativas. De resto, não vejo que tenha de escolher entre a felicidade e a tristeza porque Hillary vem a Cabo Verde. Os EUA sempre foram um parceiro exemplar para o país e é até justo que haja um esforço para retribuir(em troca de mais ajudas claro, afinal "és ki vicianu na mascadjon"). O meu medo infinito é o de sempre: as gaffes de protocolo, as gaffes culturais, o guarda roupa de certas ministras, as piadinhas do Veiga que bem pode sair com um "do you like krrioulo"...enfim coisinhas supérfluas.

O mundo de MUTO...

Todo um mundo novo para descobrir, para aprender, a arrte completamente revolucionada pelas tecnologias...muitas vezes parece que consumir coisas e informação, opinar e fazer circular pareceres, distribuir o Self e o narcisismo são os únicos fins de toda um geração...mas basta alargar o nosso leque de interesses para ver o quão limitados podemos ser quando apenas frequentamos o nosso circulo: de ideias, de amigos, de interesses, de gostos, enfim nosso umbigo (sim porque o umbigo é sempre maior que aquele pontinho na barriga)... curtam o video!

Tenho tentado encontrar, escrever algumas palavras para esclarecer-me do paralisia, apatia, do silêncio que a noticia de uma morte sempre provoca. Não porque o conhecesse pessoalmente, não porque tenha alguma história especial para contar, não que me apeteça meditar ou reflectir sobre os contornos da trajectória da vida e da morte de Biús. Simplesmente porque é certo que aconteceu, porque é inalterável...incontornável. O resto não interessa. Como não tenho palavras adequadas, lembrei-me de Bobby Mcferrin e da sua versão de Avé Maria de Bach para dedicar a Bius, acompanhado por Sung-Won Yang. Porque a música não morre...

Bius...

terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Agnès Varda

Acabo de voltar do cinema. Fui ver "As Praias de Agnès"...e sei que muito dificilmente verei um filme tão belo e inspirador nos próximos tempos.

se...

Imagem: Ugo rondinone
O café margoso perguntou se houvesse um ensino de arte em Cabo Verde em que patamar estaríamos. Falo apenas das artes plásticas. Para começar não teríamos a necessidade constante de destruir a obra alheia com comentários depreciativos. Sei bem o que muitos pensarão: mas tu és o primeiro a atirar pedras. Vou lembrar a frase que na altura deu tanta conversa: “Em Cabo Verde não há pensamento voltado para as artes!” Volto a sublinhar e a repetir o que eu disse em 2006. Aliás o tempo e os muitos debates em torno do tema deram-me razão. Na altura alguns consagrados responderam porque se sentiram atacados por um miúdo recém chegado ao país. Mas hoje sei que me dão razão.
Imagem: Mariko Mori
Num segundo momento, se houvesse um ensino de arte no país, teríamos condições de pelo menos uma vez por ano ter uma grande exposição individual de nomes consagrados como: Luísa Queiroz, Manuel Figueira, Tchalê Figueira, Bela Duarte, Mito, Leão Lopes, Kiki Lima. Porque sem referências não podemos ensinar nem aprender nada. Porque esses senhores têm obra e simbolizam as referências do futuro. São os percursores de épocas e fases distintas das artes em Cabo Verde, fizeram arte quando ainda não havia uma arte cabo-verdiana. A arte, neste sentido, não permite muitas pareceres a quem considera que tudo está constantemente a ser inventado no momento preciso em que opina. Se a capacidade de fruição da arte é comum a todos os seres humanos, tal e qual outras áreas, sem treino e estudo de nada vale um a opinião meramente intuitiva. É como se eu dissesse “acho feia/ou bonita a manipulação genética” ou “é inútil o homem fazer viagens à lua”.Imagem da exposição de Julie Mehretu Em terceiro lugar, se houvesse um ensino de arte em Cabo Verde, todos entenderiam o porquê de não termos monumentos públicos de referência, porque o Homem de Pedra, o Papa da cruz de Papa, o monumento ao emigrante(si ka badu ka ta biradu, e com isto sei que não vou despertar simpatias), o monumento à revolta de Ribrom Manel são meras contratações de amigos e brincadeiras de mão gosto para com a população. Entenderíamos que os políticos tal e qual o temos hoje em dia (totalmente ignorantes culturais) não deveriam decidir sobre matérias de arte urbana/publica.Imagem:Thomas Hirschhorn Se houvesse um ensino de arte, milhares de contos em obras de arte, mantidos em arquivo, não estariam a apodrecer no sótão do palácio da cultura. Se tivéssemos um ensino de arte certas empresas nacionais e seus administradores não patrocinariam exposições e catálogos a artistas, que entrando num espaço internacional e na história da arte, não passam de amadores. Em tempos de crise aproveitaríamos para inscrever 97% dos artistas nacionais em escolas de capacitação profissional para carpintaria, jardinaria, canalização, electricista, etc... sim porque este país precisa de homens e mulheres capacitados, não de artistas de bairro. Principalmente entenderíamos que não são motivos pessoais que me levam a tecer estes comentários, mas sim o conhecimento do meio e campo artístico( e não me apetece escrever modéstia à parte).Imagem:Jim Hodges Se houvesse um ensino de arte, quem comprou ou compra ainda obras sobre o nosso quotidianos, entenderia o papel fenomenal que a fotografia exerce nos dias , entenderiam o vídeo como um instrumento de comunicação de excelência num tempo em que as tecnologias e os pixeis fazem e reconstroem a realidade. Se houvesse um ensino de arte alargaríamos o nosso leque de interesse e estaríamos disponíveis para aprender mais sobre arte e fazer com que faça parte das nossas vidas. Isso se houvesse um ensino de arte...enquanto não houver vale mesmo a pena destacar os que por um esforço e aposta pessoal trilham esse caminho. Um saravá especial a Bento Oliveira.

Construção

"Construção" de Chico para todos!

circulares...

E se depois da infraestruturas todas construídas eles não forem para Cabo Verde? Se continuarem a ser apenas italianos à procura de acasalamento ? E se eles descobrem nossos defeitos culturais, pior ainda, e se derem conta que afinal nossa cultura é pobre, que Cesária é um milagre e que Mayra, Hernani, Princezito excepções. E se finalmente perceberem que Zézé di nha Reinalda , Codé Di Dona e Manuel de Novas, os mais genuínos compositores em crioulo, são figuras invisíveis no nosso dia a dia...se calhar condenados, porque não haverá mais prémios Camões que os bote na boca da imprensa e dos políticos. Sim e quando dermos conta que as estradas alcatroadas de penetração feitas para a comodidade dos investidores continuam sub-utilizadas, mas os bairros clandestinos e a miserabilidade dos cabo-verdianos continuam a aumentar. Este é um exercício para dementes: imaginar as longas estradas alcatroadas (a minha preferida para treinos de meditação vai a ser circular da ilha do Fogo, confesso) desertas, um carro ou outro de tempo em tempo e a população que antes andava em caminhos de cabra agora usando fabulosas estradas para andar e pastorear. A população dos bairros de lata, de blocos de cimento continuará construindo suas ruas estreitas e seus labirínticos destinos, a imensa teia de arranha de fios clandestinos estenderá seus tentáculos. Jovens drogados continuarão na sombra à espera de um descuido, de um momento de calmaria para atacar com coronhadas e navalhas afiadas. Os governantes circulando em Prados e Tuaregs, pagando largas contas à nossa bem sucedida diplomacia. Os ex-governantes em cargos de chefias de instituições e missões internacionais. Cabral morre todos os dias...e desta feita sabemos todos quem é o assassino.

Imagens: Folkert De Jong

segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

povo undeu?

Cabo Verde parece-se cada vez mais a uma linda garota de propaganda, bem trajada e maquilhada...vem a chuva, borra-se toda e começa-se a notar as rugas e imperfeições...que no fundo todos sabemos existir... mas que não fazem diminuir em nada o apego e o amor que sentimos... sinais que, estranhamente, os governantes(maquilhadores) insistem em camuflar, em decorar com belas cores e oratórias... Os políticos jogam com o povo, cobram impostos, cobram colaboração popular, os politicos sugam o pouco que ganhamos em taxas e mais impostos, o estado fode-nos literalmente e temos de sorrir, porque no fundo somos todos uns cabrões mal agradecidos que não arranjamos tempo e gasolina para andar na circular da Praia, porque ficamos felizes que a oposição tenha chumbado, por agora, a taxa de iluminação pública.. tudo para receber a bênção do ocidente, o diplominha de menino bem comportadinho. Leio nos jornais on-line as nobidades di terra e dá-me ganas de aprender a jogar a "político"...pena que os critérios de pertença a partidos no país excluam indivíduos que se recusem a dar mamadas ao líder e tenham um certo pendor para...pensar. Pronto, também há alguns partidos(neste caso os dois existentes no país) que aceitam que alguns militantes tenham um período de rebeldia para pensar (...fora do partido, claro!) e depois voltem a militar... Mas a mim isso também não me dá jeito. A consciência é um merda...mas também nunca disse que era perfeito. Embora para alguns, a consciência é como o apêndice quando doí demasiado retira-se porque não tem muita utilidade.

e agora para nois todos...

Está nascendo um novo líder??? Seu Jorge pediu uns versos emprestados a Leci Brandão...e cantou que tá nascendo um novo líder...

domingo, 2 de Agosto de 2009

Para meu filho Martin, esse pedaço de mim

Poema Enjoadinho

Vinicius de Moraes

Filhos... Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos Como sabê-los? Se não os temos Que de consulta Quanto silêncio Como os queremos! Banho de mar Diz que é um porrete... Cônjuge voa Transpõe o espaço Engole água Fica salgada Se iodifica Depois, que boa Que morenaço Que a esposa fica! Resultado: filho. E então começa A aporrinhação: Cocô está branco Cocô está preto Bebe amoníaco Comeu botão. Filhos? Filhos Melhor não tê-los Noites de insônia Cãs prematuras Prantos convulsos Meu Deus, salvai-o! Filhos são o demo Melhor não tê-los... Mas se não os temos Como sabê-los? Como saber Que macieza Nos seus cabelos Que cheiro morno Na sua carne Que gosto doce Na sua boca! Chupam gilete Bebem xampu Ateiam fogo No quarteirão Porém, que coisa Que coisa louca Que coisa linda Que os filhos são!

amigos de toda a vida...

Os encontros são sempre para sempre, sempre eternos. Há gente que nem conhecemos, assim carne a carne, mas que levamos pela vida como se fossem os amigos de sempre. Esses dois caras, Chico e Caetano estão sempre aí, pairando sobre minha existência. Já os levo faz tempo no peito, mas sempre penso para mim " quem me dera tê-los conhecido antes.Certeza seria um ser humano bem diferente, bem melhor.

para o próximo Gamboa quero...Seun Kuti

quinta-feira, 30 de Julho de 2009

we...

Nada como umas algemas bem apertadas e um lacinho cor de rosa para acalmar os ânimos e se pensar na loucura. Nada como um corrente bem grossa atada aos pés e um tronco de madeira para nos prender à vida. Nada como subir a calçada e contabilizar os penteados e a moda, os centímetros e as franjas, os piercings e as tatuagens. Chegar a conclusão da absoluta falta de originalidade do nosso tempo. "Também quero", berra a doida gorda preta,a que há tempos pariu um menino mulato, sabe Deus filho de quem. Bruno enlouqueceu e ninguém quer saber, ontem às sete passou por mim e gritou no seu sotaque de Luanda “ele vai morrer, tá fudidu e num sabi”. Ia nu, completamente nu, exibindo sua grande picha, que noutros tempos fazia gemer Tereza, no quarto do lado da minha casa em Picoas. Pois, conheço bem o Bruno, mas ele já não se lembra do passado. Passou por mim com os seus olhos de louco e gritou “ele vai morrer, tá fudidu e num sabi”. Nada como uma corda e um nó bem atado, uma viga para se pendurar e por fim a esta loucura geral. Nos estantes muitos livros e o ócio. Estranhos aparelhos com mil funções e megas capacidades de armazenamento. Nas descidas, mulheres de todas as formas e feitios equilibram-se sobre tacões multiformes para não cederem à seda do chão escorregadio. “Arranja aí um cigarro dred”, não respondo e sigo em frente, então vira-se para o lado e cospe fogo para o ar. Do outro lado da rua a “sua miúda” de olhos pretos carregado pela maquilhagem olhava para o mundo com o olhar de desprezo típico da idade de ignorância. O único que sabia. "Chulos de merda", grita entre um gole e outro na garrafa Xl de cerveja barrata do Mini preço. Penso no mundo e vem-me à cabeça a voz de Bruno lá em cima, correndo nu “ele vai morrér, tá fudidu e num sabi”.

Imagens: John Currin

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Angola Pop

imagem: Kiluanje Kia
...ainda sobre a Hillary Clinton e a política externa norte americada, estou um pouco confuso...vai a Cabo Verde dando assim aos crioulos e crioulas dançarinos do zouk um prémio à boa governação do país... mas antes passa antes por Angola onde Rei(na) o maior democrata do mundo, um senhor chamado José Eduardo dos Santos... dear Obama i'm so confuse..

prémio Pavlov...

imagem: Jorge Dias
O jornal Público de hoje diz que a visita de Hillary Clinton a Cabo Verde( "um dos países mais exemplares, quanto à estabilidades da política governativa") deve ser visto como prémio simbólico à boa governação. Se isto não é interferência nos assuntos internos do país, resta-nos apenas ladrar e abanar o rabo felizes, como os cães de Pavlov quando Hillary pisar o chão das ilhas. Resta-me desejar que nesse dia chova muito, que Electra venha abaixo e pelos menos alguns grupos de thugs resolvam fazer uma demonstração pública da nossa "american way of life." Claro que a segurança do estado norte americano se encarregaria de elimina-los todos num ápice, dando uma valente lição a ex-Ministro Júlio Correia e ao actual de quem nunca me lembro o nome. É pena, mas cá para mim, nunca haverá um estatuto "cidadão lusófono". Trata-se apenas de mais um golpe eleitoralista de PS e de Sócrates. Ontem vi o debate António Costa e Santana Lopes e torço cada vez mais para que Costa ganhe a câmara de Lisboa. Santana Lopes é apenas uma espécie de Felisberto Viera português...só que com mais classe. E há quem não encontre classe nenhuma em Santana.

oh sócio...

Imagem: Yonamine

“Quando o conheci, Rato Mickey ainda se chamava António Taborda, mas era mais conhecido por mestre devido à sua experiência e talento como sapador” assim inicia Agualusa a descrição de um personagens(secundárias) de Barroco Tropical. Esta ideia de transmutar-nos de nome de acordo com as nossas habilidades, aparência, percurso, experiências é também muito comum na sociedade cabo-verdiana, tanto que muita boa gente ao chegar a “doutor” tem de fazer um esforço extraterrestre para se livrar das alcunhas e nominhos e voltar a ser o nome de registo e baptismo. Enfim uma pessoa séria. Mas há tipos que bem merecem ser rebaptizados com novas alcunhas pelos novos actos, actitudes, manias...tipo funano o Lambe botas, Siclano o Corrupto, Belclano o Graxista, Zézinho o Ladrão, Sisiclana a Tótó, Filcrana o Rato, etc e tal. Ah, esqueci-me de começar este post com a “não me arrependi do post de ontem à noite”, mas acho que mesmo no fim faz sentido. O vinho era bom e estava no meu perfeito juízo.

terça-feira, 28 de Julho de 2009

Imagem: Délio Jasse
Ler blogs é algo que pode chegar ao deprimente, se formos lúcidos, concluiremos sem dojo que muitos gajos e gajas simplesmente não tem jeito nenhum para esta merda e que estão simplemente vomitando lugares comuns para a malta do bairro (ou do prédio). Ha tipos sensatos que ao fim de algum tempo se dão conta da coisa e puuufff desaparecem da virtualândia. Neste exacto momento estão tipos a pensar que eu (eu de Abraão) sou um gajo profundamente convencido e tal, que penso que sou muita bom etc e tal. Pouco me importa. Minha recomedação é darem um vista de olhos pela blogolância e que depois julguem...ya democracia e tal, mas antes dos blogues a educação também foi democratizada e os livros também. Isso sem falar que a própria internet (vou dizer agora um mega lugar comun) é uma fonte enesgotável de informações....de todas as formas, isto aqui, foi apenas um intervalo entre uma garrafa de vinho e outro, por isso perdoem a minha dureza, amanhã já estarei arrependido...ou não.
Ontem fui ao cinema para ver "Ensaio sobre a Cegueira". Que não é um filme da qual se possa dizer "gostei" ou "odiei". As fragilidades todas do ser humano aí expostas. A ténue linha que nos separa dos animais e dos bárbaros evidenciada. A pergunta : não estaremos todos cegos? O filme é demasiado forte para quem só procura estética, exageradamente real para quem em todo o momento age como se já estivéssemos numa cegueira colectiva. Negociar até ao limite pela sobrevivência. Saí meditabundo da sala e hoje tive medo de abrir os olhos ao acordar. Saio do cinema pensando também na opinião negativa de muitos críticos que, de certa forma,ditaram o fracasso nas bilheteiras de "Ensaio sobre a cegueira", enquanto o patético "Harry Potter and the half blood prince"(fui ver no domingo) vai ganhando milhões na bilheteira. Muito provavelmente não haja muita gente disposta a seguir as minhas indicações, mas vou insistir nesta absurda ideia de exercer influência sobre quem me lê: o ultimo Harry Potter não vale a ponta de um corno. Pronto já está, agora se quiserem insistir em criar ansiedades,por-se na fila e comprar pipocas para...mi nada a ver.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

jogo de dados...

O papa JP II resistiu até ao fim e não se demitiu. D. Paulino Évora, ao contrário, comporta-se tal e qual alguém que entrou para a função pública: chega a idade a partir da qual se recomenda a saída e pimba. Ouvi, que é muito provável que seja candidato a Presidente da câmara de Cidade Velha. Por aqui Sócrates e outros tipos confundem o povo com outdoors e slogans manhosos. Um partido de direita escolhe uma frase à esquerda “ nunca baixamos os braços” e Sócrates (amigo intimo de Joseph Mary) aparece no meio de gajas com ar de beatas ingénuas, com cara de quem se quer convencer a si próprio de que “nós conseguimos”. Pelo meio, nas autárquicas Santana Lopes parece ser o Filú da zona, por isso Costa diz que a missão de por a câmara a funcionar foi cumprida. Cheira-me que Ulisses daqui a quatro anos vai querer dizer o mesmo. Leio os blogues berdianos com mais interesse do que os jornais onlines. Sei pelo Redy que àgu ka ten, pelo César dos casamentos, mais actores e as artes CV pelo margoso, as ameaças de gripe pelo hiena e son de santiagu, o novo visual do Pedra bika transformado no blog twitter. Os on-lines continuam atrás dos políticos e dos protocolos...adivinho as apostas dos cabo-verdianos para acertarem quanto tempo de férias o jornal A Semana vai tirar este ano. As saudades do meu filhote começam a ser difíceis de aguentar... à noite tenho pesadelos.

Imagens: Ai Wei Wei

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

beleza...

Imagens: David Lachapelle
Tenho um defeito grande e devo confessa-lo aqui, neste blog rosa porno como alguém já o chamou. Vinicius de Morais já o dizia e uem sou eu para dizer o contrário: só me apaixonado pela beleza. Sou fútil, fraco e com fortes tendências para ignorar e ser extremamente insensível ao grotesco, ao feio, à ausência de formas. Parafraseando Pedro Juan, se houvesse um grupo de adictos anónimos eu me inscreveria e seria o primeiro a levantar-me nas rodas e estaria disposto a abrir-me ao público de dizer “meu nome é Abraão e há duas semanas que não me apaixono por um mulher bonita”. Ontem estava, numa conversa calorosa e uma menina me reprovava dizendo que com esta atitude muito provavelmente o amor da minha vida me passaria ao lado, ao que respondi muito calmamente e com um sorriso enorme “I dont think so”. Cada um defende o seu pedaço e eu sou um adicto à beleza, mesmo às mais frágeis, às momentâneas, às que se fazem ao sabor das maquilhagens, da depilação e das plásticas (e não estou a pensar em nenhuma estrela da Hollywood)......sou fútil e artificial , eu bem sei, mas estou programado para ter prazer e desprezar qualquer acto moralista que tente educar-me e convencer que o amor é outra coisa qualquer . Por norma, respeito as feministas e os seus sovacos e púbis peludos, mas gosto mais das que se conformam em ser apenas mulheres, convictas, fortes, talentosas, amigas da água e das mais variadas técnicas depilatórias e de combate ao celulite. Podem chamar-me nomes, o máximo que eu posso dizer é que vou fazer de tudo para não ser um gordo barrigudo amante do sumo de cevada e da bola.

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

sem citações...

Agora mesmo, e sem citar Amílcar Cabral ou Martin Luther King, conseguiria dizer porquê é que Cabo Verde anda no mau caminho (entenda-se com PAICV ou MPD no poder)...mas não vou fazê-lo porque já são quase duas da manhã e tenho sono. (já agora só para avançar um motivo: sei que muita gente vai gostar da imagem que ilustra este post e que provavelmente vão tira-la e usa-la futuramente para ilustrar um post ou como fundo do ecrã. Quando o fizeram não tenham vergonha de dizer onde o foram buscar.)

esse mambo ta male...

Paula Rego
Ao ler a última crónica desaforada do Café Margoso poderia socorrer-me de muita gente esperta e uma extensa bibliografia (que eu na qualidade de pseudo intelectual nunca teria tempo para ler...nem entender) para dizer que Cabo Verde é mesmo a cara chapada de um certo país, onde não me sinto estranho nem estrangeiro, de onde partiram uns certos veleiros para descobrir o mundo (que andava coberto...claro) e criar mulatos. De resto JB, tem toda a razão e é mesmo uma vergonha nacional que Morabeza(qualquer que seja o real sentido dessa palavra) seja o lema que nos conduz universo afora. Estando cá nos estrangeiros, ao ler os jornais online, de facto Cabo Verde parece-me um país maravilhoso para viver... entre outras coisas ainda estou à espera da noticia que desminta o regresso político de Filú e aquela de que o prémio camões para o Arménio Vieira confirma a grande dinâmica de visibilidade internacional de Cabo Verde. Para tanta pouca vergonha, não vejo nenhuma razão para que um tipo decente não comece a chamar de filho da puta a gajos que antigamente eram representante do povo em cargos públicos. Eu não o vou fazer porque...hoje não me apetece...muito. Também estarei à espera para ver quanto tempo o jornal Asemana aguenta até roubar mais uma ilustração ao Hiena. Para terminar, resta-me dizer que respeito muito os profissionais da saúde em Cabo Verde e no Mundo...isso porque tenho medo de morrer... e porque acho uma malvadeza as condições em que trabalham no meu país, reduzidos a santeiros e mães de santa, autenticos milagreiros. Aos que são naturalmente filhos da puta(desculpem-me, não estou inspirado e essa é a unica palavra pior que cabrão que se me ocorre) e maltratam os doentes e as mães em trabalho de parto, posso simplemente dizer que se jáestá quase provado que Deus não existe, já se provou que a terra pode ser o pior dos infernos...aqui se faz aqui se...

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

nos la si...

Imagem: Andrea Gursky
Apenas trinta e quatro anos de independência e já estamos num ciclo vicioso de repetições e mesmices. No inicio do ano reclamamos os salários baixos e a pechincha que é a proposta de aumento do Governo. No verão, especialmente, mandamos vir contra a Electra, Julho lamentamos as chuvas: poucas ou muitas; Outubro falamos de regresso às aulas e dos salários miseráveis dos professores, Novembro é aquele mês merdoso que traz os primeiros ventos secos e Dezembro é natal, a festa dos chineses. Durante o ano temos o Joseph Mary e seus ministros apregoando um país top de gama, em que quase tudo falha menos as contas da Cristina Duarte. Em intervalos de surpresa, há sempre quem ache que a destino das ilhas já não é suficientemente cabrão e resolvem ressuscitar Filú. Desconfio ainda, que lá mais para o final do ano,algum semanário da praça vai ter a lata de passar em cima de Arménio e nomear JMN ou Manuel Veiga o homem do ano. Pelas barbaridades que oiço de políticos e leio de alguns cronistas VIP(Very Idiots Peoples), um futuro, não muito longínquo, Cabo Verde, mais do que bons engenheiros vai precisar de bons psicólogos...e psiquiatras.

terça-feira, 21 de Julho de 2009

um palavra pa Mayra...

Ontem, ouvi pela primeira vez o novo CD de Mayra Andrade. Gostei muito. Mayra tem cada vez mais personalidade e um charme inigualável dentro do panorama da música crioula. Também gosto quando canta francês e nesta storia storia também brasileiro. Mas é em crioulo aberto, livre ... que melhor Mayra alcança essa tonalidade quase rouca que, confesso, fascina-me. Na primeira audição completa escolho Joana e Palavra como minhas faixas predilectas. Mayra gosto sim e assim universal, ela mesma, livre de amarras...ainda mais. Dá orgulho.

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

papa is back...

Os ilhéus em geral e os cabo-verdianos em particular, devem levantar-se de manhã e pensar que nem sequer aparecem no mapa mundi (ideia roubada de um conhecida). Assim relativizando tudo: a vitória de Filú lá naquela eleição( que não deveria interessar a ninguém, a não ser aos bichos partidários, mas que ganha estranhas proporções num país minúsculo e tacanho), repito a vitória de Filú não significa nada( não me venham com queda de popularidade do Joseph Mary Of The Snows e o efeito segundo mandato). Esse nada, significa simplesmente que Rui Semedo, embora tendo perdido, continuará a ser o líder parlamentar do PAICV, que os derrotados vão respeitar e congratular-se, como é óbvio com a grande democracia interna(escondendo o espanto/vergonha e a descredibilização do líder do partido), que Filú vai continuar suas assadas (agora às custas do sector do partido), que JMN afinal tinha razão ao convidar o petu pomba para assessor......significa que os militantes do PAICV estão-se a cagar para a vontade do povo e a proximidade das eleições legislativas, que João Dono e a malta do MPD irão mostrar os dentes e trrrriturar o assunto em debates, posts e conferências sobre o tema “ A DECADÊNCIA DO Império” ou “ O REGRESSO DO NUNCA LÍDER AGORA LÍDER DE UM PEQUENO pAICV”, significa também que o Edson Medina fez uma péssima escolha ( ronto digamos mau timing) no seu regresso à militância activa e que ninguém o vai conseguir convencer do contrário. Confirma-se que a base do partido está com Filú e que PAICV é um partido sem senso crítico, em outras palavras, corre o risco de ganhar mais um mandato se se confirmar que é mesmo o partido do povo (tenho a minhas dúvidas). Li num on-line que a Uni-CV tem nova reitoria, nova equipa encabeçada pelo António Correia e Silva...sinceramente acho que esse seria um tema muito mais interessante do que postar sobre a evidente decadência do PAICV, sobre a inevitável atracção que uma telenovela pimba (A cidade de Filú) exerce sobre a povo. Dá-me vontade de dizer “tô fora”, mas por estas alturas isso já é por demais evidente.

imagens: Maurizio Catalan

domingo, 19 de Julho de 2009

lingua atrofiada...

Pouco a pouco ganho nova rotina na cidade que também me ama. Vestido de nostágico, ontem fui ao cinema. A sala enorme e as cadeiras arrumadas, certas, muitas vazias e nós ali a ouvir estórias de caçadeiras e ódios. Nós ali sentados indiferentes ao que já fomos e às sete garrafas de vinho secadas em goles de seis bocas famintas de palavra.Ontem à noite. No ouvido ainda o barulho do quarto ao lado e os gemido contidos de um corpo retido no toque de um membro forte. Talvéz da saudade. Amanhace e pomo-nos, nós os três a caminho de uma praia, extensa, povoada de corpos esbeltos e celulites andantes. Água fria da cor do mar da minha terra. Cá dentro tenho uma terra que é minha porque longe. Água gelada para se beber e chocos grelhados. Ao telefone meu filho diz pápá e come gelados. Pára o carro, desces e vais-te embora com o teu sotaque e teus odores. Seguimos Estefania a baixo e sei que estou de regresso...porque lembro-me do tempo em que não sentia. Afinal Edgar Martins mentiu, sua fotografia não é assim tão pura e o photoshop até ajuda. E tu vais rezando para que nada aconteça, para que lá fundo eu não seja assim, tão cabrão e filho da puta como tuas amigas contam que sou. Vais pedindo aos céus, onde nada existe além do vazio, para que eu seja tal e qual tu pensas que eu sou.Eu assim tão normal e pacato caminho, de mão nos bolsos , no carris do eléctrico. Ao amanhecer vou beijar teus pés Lx para saberes que também não tenho dojo de te pertencer, mesmo que seja por breves instantes. Amanhã, sei que lá longe alguém ainda se pasma com o quao destrutivo podem ser as palavras. O amor não se em traduz prosas, poemas e silêncio. O amor é uma besta que devora o futuro. Imagens: Sara Small

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

contracapa...

Ontem fui emocionado por um cartaz que anunciava hoje às onze da manha num Atriun qualquer de Coimbra o evento: “um café com Mia Couto”. Levantei-me para tomar o pequeno-almoço e logo desci para comprar qualquer coisa na loja em frente ao hotel. No Hall de entrada lá estava ele sentado a ler um jornal. Parecia sereno e tranquilo. Saí sem nenhuma intenção de me dirigir ao mago das palavras. De volta, Mia Couto tinha sumido e deixado o sofá vazio e o jornal arrumado a um canto. Em meia hora estaria de novo à sua frente no tal Atrium. Na plateia velhas de cinquenta, sessenta, alguns senhores da mesma idade e outros poucos jovens. Um punhado de guineenses, dois ou três moçambicanos. Mia Couto começou a falar depois de ter sido introduzido por outras duas personalidades. Estava muito feliz por poder partilhar aquele momento connosco, dizia. A mim parecia-me aborrecido. Ou se calhar, simplesmente ciente, de que havia qualquer coisa de profano, nele estar ali, num centro comercial, a expor-se daquela forma a carnívoros. Manobrado pelas forças editoriais a tentar vender livros em troca de assinaturas. Sem querer, comecei a dar voltar e a ver os escaparates das lojas. Em mim, crescia a certeza de que se tinha naquele momento desmantelado um mito. Espreitei de novo o cartaz que anunciava “ um café com Mia Couto” e pensei que existem figuras que deveriam existir apenas nas contracapas dos livros. Irreais e fantásticos. Soube naquele instante que a minha última lembrança do Mia Couto deveria ter sido ele sentado num sofá no hall de entrada do Tivoli, na cidade de Coimbra. Resta-me o consolo de ter conhecido Jorge Marmelo antes de ter folhado qualquer página de um livro seu.
Imagens:Martin Schoeller

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

onde estou assim...

Poucas coisas são perfeitas e o amor é uma delas. Tudo é procura e apenas em momentos fugazes encontramos felicidade. Longe do recanto dos últimos anos, sinto falta do pedaço de mim, meu filho. Anónimo entre edifícios e o fashion oiço, ao cair da noite, o fado. Vejo Coimbra anoitecida. A capela é do Sec.XIV (mais antiga que o nosso património da humanidade) e o fadista canta Sodade, tal e qual o dia em que esteve em Mindelo ao lado de Cesária. Lembra-se o cantor de fados. Nas suas palavras Cabo Verde é mito. Digo eu. Mas também aqui não há um teatro municipal, as pessoas são tacanhas e os lobbies são muitos e poderosos, aponta-me uma figura relevante da cidade. Há pessoas que esperam mais de cinco anos para serem operadas. Outras morrem, mas o pior são os títulos, sim porque os títulos matam. Vem-me à cabeça a minha última noite num hospital em Cabo Verde e o desespero em sangue de um amor que acabou em tragédia, drama… e agora é passado distante. Demasiado para algo tão perto. Somos todos bestas e falamos muito de política, de pobreza, de cultura, de causas e evitamos falar de amor. Se calhar o amor é uma treta. Os políticos são ridículos quando falam de amor e os pobres procriam desmesuradamente porque se amam com frenesi… e eu que apaixono-me e entrego-me pateticamente aos rituais do beijo e do toque. Tudo sempre acaba em arrependimento e mágoa. As juras de amor são sempre eternas… e o esquecimento também. Consolo-me no olhar de Inês, que não se chama Inês, mas apetece-me chama-la assim porque suas feições, mãos, cabelos encaracolados e as cores da maquilhagem...lembram-me Inês. Coimbra tem muitos encantos…e mulheres para se amar como se o amor fosse real e eterno.
Imagem da obra de: Carlos Bunga e Richard Serra

terça-feira, 7 de Julho de 2009

Utopia

Utopia de César Schofield Cardoso é uma experiência única dentro do panorama da arte contemporânea cabo-verdiana. Gostei muito da utilização do olhar fotográfico na concepção do vídeo, da montagem e da armadilha sensorial que é a combinação entre a trilha sonora e a imagem. Provavelmente Schofield descobriu o seu meio de expressão de excelência. Atrevido e arrojado. Sem dúvidas, ficou aberta um precedente na história do modo como tratamos e vemo-nos através da obra de arte. Tendo Praia como pano de fundo, os dois vídeos da autoria de César (dos três que completam a instalação), são estudos de antropologia urbana. Uma dissecação do olhar visceral de César sobre a sua cidade. Com esta exposição, César inicia um outro percurso na construção do seu corpo de artista.

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Luz...

Acho bem que a electra corte a pouca luz que existe nas ruas. Assim, em tempo de verão, podemos contemplar as estrelas e o céu de Cabo Verde. Juntos, apertadinhos nos sofás, nos “mochos” e cadeiras improvisadas podemos assistir sem falta, aos capítulos das muitas telenovelas e ao telejornal das oito, das dez e a repitição das onze. Poderemos acordar de manhã todos revoltadissimos e escrever posts mandando nomes à electra, ao estado e ao governo. Poderemos todos apinhar as praias ao meio dia e nas primeiras horas da tarde, poderemos deitar nossas mulheres entre gritos e gemidos, prolongar o coito horas a fio sem pressa de acudirmos os amigos ou à amante. Poderemos aumentar a taxa de natalidade e incentivar mais e melhores politicas para as crianças do país. Sim, acho bem que a electra corte a pouca luz que existe nas ruas, assim eu mesmo, irei ao cobóm comprar uma arma para usar na primeira ocasião que se me proporcionar. Vamos manter os porcos encurralados nos chiqueiros e os cães raivosos soltos à caça de trasgressores. Vamos incentivar a denúncia e a desconfiança. Agora que MJ morreu, sabemos que podemos andar descansados pela escuridão. Nenhum ser mutante abrirá as campas, nenhum ser doutro mundo arrastará suas vestes despedaçadas e suas correntes infernais pelas ruas da cidade. Vamos apagar as luzes sim. Espremer apavorados palhaços à parede e ver as calças coloridas se humedecerem.
Maleonn

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

perfumes...

Não há nada mais deprimente do que mulher com perfume barato. O autocarro cruza a pista do aeroporto. Linhas amarelas e brancas codificam o alcatrão em secretas directivas aos pilotos e controladores aéreos. Dentro do autocarro faces cansadas e aborrecidas percorrem calados a distância entre a gare e o avião. Uma moça gorda, branquíssima, chora olhando pela janela, tentando localizar entre os vultos e os carros que passam lá fora um bracinho, um lencinho, um adeus frenético. Imagino as valentes fodas que não deve ter recebido na ilha de algum macho crioulo para estar naquele estado. Agarro-me com força a Lobo Antunes e na minha cabeça Não há nada mais degradante que uma mulher com perfume barato. Em pé, mesmo ao lado, outra branquinha bronzeada, também gorda e quarentona pergunta-lhe qualquer coisa e ela num português manhoso Venho morar aqui em Setembro, de repente o mundo se recompôs e as duas gordas sorriram. Ao lado da gorda bronzeada um rapaz de rastas ainda muito curtas, vinte e dois ou vinte e três anos, pulseiras de prata, roupa italiana de marca, um ar de garanhão. Olhava o resto da comitiva com superior desprezo. Inclinou-se e beijou com ternura a enorme, maquilhada e bronzeada gorda italiana. Ela apaixonadíssima, ele o herói da malta fixe do bairro. A imagem do crioulo bem sucedido. E eu com esse medo miudinho que vou ganhando dos aviões e dos tubos voadores. Sento-me ao lado de um crioula de costas largas e saias ornamentadas de arcos e flores. Aborrecida folhava o livro enquanto eu inspeccionava-lhe as mamas, as ancas e a pela escura. O avião abana e agarro-me com força à personagem mongolóide e ao tio depravado nus no mato em pleno coito. Dou-me conta então do meu horror ao suor, às axilas, ao desmazelo e às pestanas desalinhadas. Deveria fazer exactamente como o personagem do livro e eliminar os cães a tiro. Não há nada mais ultrajante do que mulher com perfume barato. O avião sacode e agarro-me com força à matança dos perdigueiros. As pessoas são como os cães de caça. São treinados, treinam-se para localizar o seu próprio rasto e o dos outros. Devia fazer como se fez aos perdigueiros. Baixam as luzes da cabine e aterramos na Praia, eu e minha cabeça povoada de atrocidades intimas e do cheiro a mar, de grogue, montanhas de S.Antão, um dia de pesca em Pedra Grande, cavalinhas, bidions e a cumplicidade de um irmão em Ponta de Sol.
Imagens: EDGAR MARTINS

sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Helmut Newton Bento entrou pela casa e disparou: “Michael Jackson a moré”, abrimos a rádio e ouvimos duas ou três canções do finado e fomos para a praia esquecer de tudo, naturalmente. Um mar imenso e a nossa pequenez perante as montanhas da ilha mágica. À tarde, sentados no bar, vimos Manuel Veiga no telejornal e soubemos que Cidade Velha é oficialmente património da humanidade. Pedimos mais um grogue, brindamos à pouca humanidade que nos sobra. Comemos umas moreias fritas e saimos para a rua em silêncio.

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